Artigo: Enem deste ano deve ser mais fácil do que o de 2015

Mateus Prado, educador e especialista em Enem, fala sobre o que esperar da prova

Mateus Prado*, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2016 | 11h30

Talvez o Enem de 2016 seja o último neste modelo que começou em 2009 e, junto com a ampliação de vagas públicas e privadas no Ensino Superior, meio que democratizou ou aparentemente foi responsável pela ampliação das vagas ofertadas no País.

Na verdade, o que o Enem fez foi ocupar o lugar do velho e incoerente vestibular. E quando inventaram o ProUni, o Enem acabou sendo o instrumento de seleção mais óbvio que poderiam utilizar para selecionar as vagas que garantiram isenções fiscais para as faculdades privadas que vinham crescendo em vagas e faturamento. Como o Enem entrou na pauta na vida dos vestibulandos pouco depois do movimento de aumento de vagas e logo veio a lei que criou as cotas nas Universidades, a percepção que ficou, principalmente nas camadas de classe média baixa, foi a de que ele democratizou o acesso ao ensino superior. Mas o que ele fez mesmo foi  ficar com a fama e deitar na cama. O que democratizou o acesso ao ensino superior foi, principalmente, o aumento de vagas na educação superior pública e privada e as cotas para estudantes oriundos de escolas públicas. E com sua fama e aceitação em parte significativa da sociedade, cada vez mais instituições, ano a ano, mesmo com alguns problemas em suas primeiras aplicações, decidiram utilizá-lo de forma a classificar alunos em uma fila e falar quem podia e quem não podia ocupar  seus bancos escolares.  

Apesar disso, o Enem tem seus méritos, e não são poucos. Se no vestibular o céu era o limite para o que poderia cair numa prova, no Enem os descritores com o que deve ser cobrado em cada prova deixa claro sobre o que será cobrado na maioria das questões de cada edição. Além disso, o aluno passou a escolher em qual curso e faculdade pretende estudar somente depois de ver sua nota. Muita  gente que faria inscrições nos vestibulares em cursos ou instituições em que não conseguiria passar, descobriu outros cursos e outras instituições que se mostraram boas alternativas para suas carreiras acadêmica e profissional. Descobriu também que mudar de estado para estudar em uma universidade pública distante podia ser uma experiência de vida interessante e ajudaria a integrar as várias realidades do País, pelo menos nas salas aula do ensino superior. 

E chegamos em 2016 no oitavo ano do ‘Novo Enem’ já sabendo que o novo e atrapalhado governo quer mudá-lo, mas não é claro em falar o que pretende mudar.

A expectativa para este ano no Enem é a mesma dos últimos anos de prova: teremos questões fáceis, questões médias, questões difíceis e questões de Química – normalmente as com grau de dificuldade mais elevado. A Redação não trará um tema polêmico o suficiente para dividir a sociedade da mesma forma com que os políticos conseguiram simplificar o debate sobre o futuro do País entre coxinhas e petralhas. Certamente a Redação ficará entre assuntos que tratem de situações como ampliação da cidadania, saúde pública, meio ambiente, comportamento em nossa época e políticas públicas que foram implantadas ou serão implantadas logo mais.  Prova de natureza mais difícil do que a do ano passado é impossível, não tem como vir nada mais difícil do que a de 2015. E a verdade é que na Teoria de Resposta ao Item (TRI) quem acerta muitas questões e quem acerta poucas questões tem praticamente a mesma nota, sendo a prova fácil ou difícil. Não é o número de acertos que dá a nota no Enem, é a comparação de seu comportamento de acertos em relação aos que fizeram a prova em 2009. Quem perde um pouco quando a prova é difícil são os alunos de proficiência média pelo motivo simples de que com menos questões de dificuldade média fica bem mais difícil diferenciar os alunos de proficiência baixa e os de proficiência média.

O governo federal até poderia ter tido um pouco de coragem - ainda que alguns chamassem de populismo - e ampliar em uma hora o tempo de prova do segundo dia de exame. Além de ser a atitude correta, já que o segundo dia é extremamente cansativo, ia agradar à ampla maioria dos participantes. Mas isso não mudou, da mesma forma que não mudará a prova deste ano, porque já estava tudo pronto ou quase pronto quando o novo governo chegou.

Se houver tempo e disposição de fazer mudanças no Enem que deixarão o governo um pouco mais impopular do que ele já é, elas serão guiadas pela proposta atrapalhada de mudanças no ensino médio que, entre outras coisas, passa de 4 horas de aulas ruins diárias nas escolas para maravilhosas 7 horas diárias de aulas ruins. E as possíveis mudanças no Enem serão guiadas pela também atrapalhada, até agora, base curricular mínima do ensino médio. E eu que achava que estas bases curriculares mínimas estavam na matriz do Enem e que o Enem cuidaria de induzir as mudanças do ensino médio me enganei mais uma vez. Eu deveria ter lembrado que em nosso País nem sempre é executado o que é lógico ou o que é melhor. As mudanças no ensino médio serão decididas por quem não entende nada de educação e de ensino; muito menos de ensino médio. E essas mudanças certamente irão influenciar o Enem, pelo menos no recorte dos conteúdos que serão utilizados para gerar as habilidades (os descritores) que indicarão o que será cobrado no próximo Enem.

A grande verdade é que o Enem pode sim ficar pior ou melhor, mas isso não irá acontecer por causa de decisões coerente de especialistas em Educação. Isto virá da sorte, da loteria do que será o ensino médio e do que terá na base curricular mínima do ensino. Os especialistas até tentarão deixar as coisas arrumadas e com mais lógica, mas terão que arrumar um Frankenstein gerado por nossos políticos e por nossos revolucionários online. 

*Mateus Prado é educador e especialista em Enem

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