Artigo: em busca da universidade de padrão mundial

Precisamos tornar nossas instituições de ensino superior mais cosmopolitas e internacionalizadas

Leandro Tessler, Coordenador de Relações Institucionais da Unicamp

29 Março 2010 | 20h09

À medida que os países se desenvolvem é comum (e desejável) que suas aspirações educacionais, em particular as relacionadas ao ensino superior, aumentem. De um lado há a necessidade de ampliar o alcance do ensino superior para atingir um porcentual maior da população, aumentar a qualidade de produtos e serviços, a competitividade do país e o padrão de vida geral. De outro lado é fundamental fazer com que algumas universidades atinjam o status de “universidade de padrão mundial” (do inglês world class university), instituições capazes de fazer diferença para o mundo todo em inovação e formação de pessoal para o desenvolvimento científico, tecnológico e industrial.

 

 

A existência de pelo menos algumas instituições com esse perfil é muito benéfica para todo o sistema de ensino superior. Elas estabelecem marcos acadêmicos, interagem com instituições locais e contribuem para a formação de pessoal altamente qualificado.

 

 

Mas o que é uma universidade de padrão mundial? A piada que circula no meio acadêmico é que todos querem uma, mas ninguém sabe o que ela é nem como obtê-la. O surgimento de rankings internacionais no início dos anos 2000 passou a ser uma referência importante. Controversos, eles são contestados até por governantes. O mais sensato é entender o significado dos rankings e o que podemos aprender com eles. Por exemplo, na última edição do ARWU, ou Ranking de Xangai (www.arwu.org), há 6 universidades brasileiras entre as 500 primeiras. Os parâmetros usados tanto pela ARWU como pelo outro ranking de prestígio, o Times Higher Education Suplement (THES), envolvem implícita ou explicitamente publicações em revistas internacionais e internacionalização dos corpos docente e discente.

 

 

Desafio

O que falta para termos mais instituições e em melhor colocação? Uma ação crucial é tornar o conjunto de nossas univer,sidades mais cosmopolitas e internacionalizadas.

 

 

Algumas barreiras à internacionalização são evidentes. Uma delas é a língua. Estrangeiros invariavelmente ficam surpresos com o pequeno número de pessoas fluentes em inglês no Brasil, mesmo nos campi. O inglês está para o mundo acadêmico deste início de século como o latim para a universidade medieval. Ele permite a comunicação direta entre acadêmicos de todo o mundo. Todas as conferências e publicações internacionais são nessa língua.

 

 

No Brasil poucos institutos de pouquíssimas universidades admitem teses escritas em inglês. O principal argumento é o de que a língua é parte de nossa cultura e devemos preservá-la. No entanto, países como Alemanha, Holanda, China, Dinamarca e Portugal (que por acaso é o berço da língua portuguesa) vêm permitindo e mesmo incentivando o uso de inglês não só em teses, mas em aulas e palestras. Não por acaso esses países têm tido muito mais sucesso na internacionalização do que nós. É importante universalizar o ensino de inglês preferivelmente desde o início da educação, mas certamente no ensino superior. O currículo de nossas graduações raramente inclui ensino de inglês (ou outra língua), visando a uma fluência mínima.

Pelo mesmo motivo (língua), mas também pelas peculiaridades de nossos processos de contratação, é difícil trazer estrangeiros de primeira linha para nossas universidades. Pior que isso, a endogenia (no sentido de cada universidade contratar preferivelmente seus próprios ex-alunos) ainda é infelizmente uma prática corrente mesmo nas melhores instituições. Isso leva ao predomínio de uma única forma de pensar e ao isolamento acadêmico.

 

 

Também é importante que nossos estudantes façam parte da formação em outros países. Isso requer uma mudança de mentalidade, reconhecer com um mínimo de burocracia créditos de disciplinas cursadas em outras instituições. As universidades brasileiras costumam confiar só nelas mesmas, desconsiderando o aprendizado em instituições diferentes (em muitos casos uma unidade não aceita disciplinas cursadas em outra unidade da mesma instituição!). Uma universidade de ponta hoje deve proporcionar a possibilidade de experiência internacional para todos os estudantes. É urgente revisar os currículos e torná-los compatíveis com as tendências internacionais.

 

 

 

O Brasil já atingiu posição de destaque na produção científica. O próximo passo é fazer com que nossas universidades sejam opção séria para alunos estrangeiros e que nossos estudantes sejam reconhecidos no mundo todo. Não há dúvidas de que aumentar o grau de internacionalização das universidades é prioridade estratégica para um país que certamente terá maior importância no cenário mundial nos próximos anos.

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