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Arrumando a casa

Tudo o que se deseja é ficar livre das crianças briguentas e mimadas no MEC

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2019 | 03h00

Depois de 16 dias com cadeira vazia, Jair Bolsonaro nomeou alguém para o segundo cargo mais importante do Ministério da Educação (MEC). Às vésperas de viajar para Israel, o presidente agiu como aquele pai que vai ficar fora de casa e chama a sogra para assumir o comando dos filhos. Não dava para deixar as crianças sozinhas, brigando feito loucas e largando tudo fora do lugar. 

O tenente brigadeiro Ricardo Machado Vieira, ex-chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, chegou para arrumar a bagunça em uma das pastas mais importantes do governo. Piloto de caça experiente, terá de ser ágil o suficiente para lidar com obstáculos criados por uma mistura de ideologia, inexperiência e falta de liderança. 

O esfacelado ministério de Ricardo Vélez Rodríguez se tornou um emaranhado de grupos que brigam pelo poder. Mais de 15 exonerações foram feitas em pouco menos de um mês e a confusão continua. Na semana passada, Vélez deixou claro para Tábata Amaral (PDT-SP) e para qualquer um dos deputados da Comissão de Educação da Câmara que o ministro era o que menos entendia do assunto por lá. 

Foi justamente esse desconhecimento sobre os reais problemas da educação brasileira que deixou Vélez na situação em que está. Como ele não tinha um plano, no começo foi influenciado pelos chamados “olavistas”, o pessoal que fez o curso online de Filosofia de Olavo de Carvalho. Muitos estavam alocados no próprio gabinete do ministro. Dois deles foram os responsáveis, por exemplo, por dizer que era uma boa ideia mandar a carta com slogan da campanha de Bolsonaro para as escolas. 

Depois da repercussão unanimemente negativa, Vélez tentou mudar de lado. Passou a ouvir o então secretário executivo Luiz Antonio Tozi, ex-gestor do Centro Paula Souza, autarquia de ensino técnico e tecnológico do governo paulista. O assessor especial, coronel Ricardo Roquetti, também se virou contra os “olavistas” – que diziam claramente querer acabar com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e com o Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão consultivo do MEC que reúne grandes especialistas da área. O ministro então demitiu alguns deles, mas foi obrigado a mandar embora logo depois Tozi e Roquetti, porque despertou a ira do próprio Olavo. 

Ao que parece, a ideia do governo é deixar por mais alguns dias o ministro continuar a ser o que sempre foi. Só que agora influenciado pela força de um militar de quatro-estrelas, conhecido por ser duro em questões disciplinares. Se o MEC aparentar, ao menos, uma organização, quem sabe possa preencher os espaços vagos com quem entende de educação. 

Machado Vieira é amigo do general Augusto Heleno, que tentou emplacar sua ministra, a ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) Maria Inês Fini. Não deu certo. Por isso há quem acredite agora que o brigadeiro pode ocupar o cargo de ministro em breve, se tiver êxito na arrumação. 

Outro nome cotado para assumir a pasta é o do senador Izalci Lucas (PSDB-DF). Apesar de ter sido o autor de um dos projetos sobre o Escola sem Partido – o que faz muitos torcerem o nariz, mas agrada à bancada evangélica –, seu nome já está sendo visto com bons olhos por alguns representantes da comunidade educacional. Foi um dos deputados mais atuantes na Comissão de Educação e já está estudando as pesquisas na área para se preparar para o cargo.

Também já se falou que o ministro- chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, assumiria o MEC. A desesperança é tanta que educadores estão até desistindo de torcer por um especialista em políticas educacionais. Tudo o que se deseja é que, independentemente de quem for o substituto de Vélez, o MEC esteja livre das crianças briguentas e mimadas. 

* É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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