Arquiteto propõe opções à sala de aula tradicional

Para ele, espaços devem ser divididos em cinco, cada uma com funções, mobília e atividades específicas

Patrícia Gomes, do Portal Porvir,

30 Janeiro 2013 | 15h56

As salas de aula, formatadas no século 18 e replicadas até hoje, vêm sendo sistematicamente condenadas por especialistas, que as consideram um ambiente impróprio para as novas formas de aprendizado que se aprensentam hoje. Que elas não são os ambientes mais adequados, já se sabe, mas o que se pode construir no lugar delas? O arquiteto espanhol radicado nos EUA Tomas Eliaeson, do escritório Little Online, propõe uma divisão da escola em que, no lugar das grandes vilãs, as salas de aula tradicionais, os espaços sejam divididos a partir de cinco novas tipologias, cada uma delas com funções, mobília e atividades específicas para proporcionar momentos de aprendizagem efetiva. Nessa nova configuração, o espaço de divide em descoberta, transmissão, troca, criação e reflexão.

“Dependendo da atividade que se faça, é preciso um ambiente específico. Se você quer se concentrar ou fazer uma prova, você precisa se isolar. Se você está trabalhando com aprendizado baseado em projetos, você precisa de móveis adequados para acomodar três ou quatro pessoas”, afirma Eliaeson, que esteve no Brasil na semana passada para apresentar sua proposta de novos ambientes imersivos de aprendizagem em um evento promovido pela escola americana Graded. Essa reformulação de espaços só foi possível, enfatiza o especialista, com as revoluções tecnológicas e os avanços da ciência nos últimos anos, que passou a entender melhor como o cérebro funciona. “Hoje nós colocamos 25 alunos em uma sala e ensinamos tudo de um jeito só para todo mundo. Isso até funciona para alguns, mas não funciona para todo mundo. Ao entendermos o cérebro, aprendemos que nós não somos iguais, que precisamos de ambientes mais personalizados”, afirma o especialista.

Tal customização, que se faz necessária na escola, já pode ser observada na vida real em vários outros segmentos, como na TV e nos restaurantes, argumenta ele. “A sala de aula não consegue acomodar adequadamente os múltiplos métodos de aprendizagem. Ela não facilita a interação entre estudantes e seus pares e entre professores e alunos; também não permite a flexibilidade necessária para um espaço voltado ao trabalho em equipe, para o aprendizado facilitado pela tecnologia colaborativa e transdisciplinar. Acima de tudo, as salas de aula tradicionais não dão o suporte necessário para o aprendizado ativo, motivador e criativo”, escreveu o especialista no artigo “The Immersive LearningScape”.

Pela sua proposta, que tem orientado a construção de escolas e a adaptação de espaços já existentes, essas cinco tipologias seriam usadas por professores de todas as disciplinas. Confira, a seguir, como é cada um deles.

1. Pensar: baseado no conceito de que o aprendizado também acontece individualmente. Espaços pequenos e ambientes intimistas permitem que o aluno tenha o tempo e o ambiente necessários para analisar e pesquisar, refletir e digerir a informação;

2. Descobrir: este é o espaço para oficinas. Será o local onde os alunos vão experimentar, explorar, aprender a partir de seus projetos, ou seja, colocar as mãos na massa. Nesse ambiente, artes, ciências e engenharia serão estimuladas a partir da cocriação, da invenção, da fabricação, do teste, da desconstrução, da recostrução, da produção e do design. Aqui, o uso da tecnologia é muito importante;

3. Transmitir: é o mais parecido com uma sala de aula tradicional. Acomoda reuniões de grupos maiores, mas a mobília flexível permite momentos de descontração ou reunião em grupos menores. Dois espaços iguais, localizados um ao lado do outro, podem se tornar uma grande sala para reunião de grupos ainda mais numerosos. Do ponto de vista físico, se parece com um auditório, uma vez que possui a acústica necessária para que todos se ouçam e os atributos físicos importantes, como um plano inclinado (como em auditórios e cinemas), para que haja contato visual entre todos os que ali estiverem;

4. Trocar: inspirado pelo potencial do aprendizado social. Esse é o espaço onde os alunos vão mostrar o resultado de seus trabalhos para colegas, professores e comunidade. É também um local de encontros, de trocas informais de aprendizado, de compartilhar ideias e de se aproximar do outro; é aqui que todas as formas de aprendizagem se encontram;

5. Criar: locais específicos para trabalhos em equipe, em grupos de pequeno ou médio porte. Esses espaços podem ser organizados a partir de flexibilidade e múltiplas configurações para comportar vários tipos de atividades, mais engajamento e aprendizado interativo. Estações com computadores que permitem conferências com pessoas de qualquer lugar do mundo podem estar aqui.

Ainda não presente no modelo ilustrado acima, que é uma das escolas cujo design foi elaborado pela Little Online, Eliaeson tem mais uma proposta de interação para o ambiente da descoberta. Para ele, grupos de escolas deveriam se organizar para ter laboratórios móveis, em caçambas de caminhões. Esses espaços teriam pequenas exposições sobre algum tema. Por exemplo: em vez de cada escola ter sua coleção de rochas, o espaço da caçamba do caminhão seria pensado para apresentar cada tipo de rocha de uma maneira atraente para os alunos. O laboratório móvel passaria uma semana ali naquela instituição à disposição dos alunos e depois seguiria para outra escola, dando lugar a outro caminhão, vindo de outra escola e com outra pequena exposição.

Claro que reorganizar o fluxo de alunos da escola não mais por salas de aula, mas por espaços de variados tamanhos e características diferentes vai exigir habilidade dos gestores, mas, como tudo o que se vem falando até aqui, é uma questão de adaptação, diz o arquiteto. Uma adaptação, aliás, mais do que necessária. “O mais triste no meu trabalho é perceber que muitas escolas construídas hoje ainda têm esse formato que já se provou ineficiente. As pessoas têm medo de tentar algo novo, mas tem muita gente mostrando que é possível”, diz Eliaeson.

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