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Aprender a ensinar

Estágios longos e obrigatórios para professores existem nos melhores sistemas do mundo

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 15h06

Em visita recente a uma escola pública da capital, uma estudante de Pedagogia me contou - sem qualquer receio pelo fato de eu ser jornalista - que pretendia burlar o sistema de estágio obrigatório. Quem quer ser professor no Brasil precisa completar mínimas 300 horas de aulas supervisionadas. A moça já estava tendo sua experiência profissional no ensino fundamental, era assistente de uma professora de 2.º ano. E me garantiu: “A diretora aqui é legal e vai assinar na minha ficha que fiz estágio também na educação infantil”. 

Responsáveis pelas faculdades de Pedagogia sabem que isso acontece aos montes, mas é difícil fiscalizar ou punir. Mesmo quando a carga horária é cumprida, em geral, não há supervisão adequada para que os alunos aprendam durante o estágio. Eles passam o tempo só ajudando professores - muitas vezes, mal formados também - e os imitam depois. Assim como médicos e engenheiros precisam ter experiência prática antes de abrir pacientes ou construir prédios, professores não podem ser jogados nas salas de aula para “aprender fazendo”. 

Estudo divulgado este mês pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que o estágio bem feito está presente nos melhores sistemas educacionais do mundo, como o da Estônia e de Cingapura. O relatório enfatiza a importância de uma “prática clínica obrigatória e longa” antes de começar a lecionar. A eficiência do estágio está ligada à supervisão de profissionais experientes, ao feedback e à avaliação.

No nosso vizinho Chile, recentemente, as leis foram mudadas para que o foco da formação se tornasse a prática. Hoje, as próprias universidades organizam e acompanham o estágio, cujo modelo é inspirado na residência médica. No fim do curso, os treinamentos ocorrem quatro dias por semana. 

O Brasil tenta mudar, mesmo que de forma tímida, as diretrizes para cursos de formação do professor. Mas a entrada em vigor das novas regras, que seria em 2017, tem sido adiada a pedido do Ministério da Educação. O novo prazo se encerra no começo de julho. A ideia é de que os cursos ensinem a ensinar. A principal crítica aos currículos atuais é a de que são muito teóricos. A carga horária do estágio, no entanto, aumentaria só em cem horas. 

O estudo também destaca que uma das maneiras de melhorar um sistema de ensino é ter professores bem formados e experientes nas escolas com alunos pobres e com dificuldade de aprendizagem. Dois exemplos são o Japão e a Coreia do Sul, que obrigam os docentes a mudar de escola de tempos em tempos, decidem onde eles vão atuar e pagam mais para os que ensinam crianças que têm dificuldades.

No Brasil, escolas com alunos de baixa renda (públicas ou privadas) têm professores menos qualificados e menos treinados para dar aulas, segundo o estudo. Há também mais docentes formados em Ciência, por exemplo, dando aulas de Ciência para alunos das classes altas. Para os mais pobres, são profissionais de qualquer disciplina fazendo esse papel.

Pouco tempo depois da visita à escola pública, estive em uma reunião de pais da escola do meu filho. Uma instituição particular, em um bairro de classe alta da capital. A professora, formada na Universidade de São Paulo (USP) e com três especializações, discutiu a autonomia dos alunos de 6 anos. Passou horas explicando seu trabalho para estimular o pensamento crítico, a empatia e o autoconhecimento das crianças, habilidades essenciais na formação hoje. Lembrei-me da estudante de Pedagogia, que nem o estágio faria direito. Em um ano estaria formada e dando aulas, provavelmente na rede pública. E, assim, o Brasil segue reproduzindo a desigualdade educacional a cada geração. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ‘ESTADO’ E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE  JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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