'Aprender a aprender é fundamental'

Para o médico Isaías Raw o mais difícil na pesquisa é saber formular uma pergunta

28 Julho 2009 | 06h00

Aos 82 anos de idade, o médico e diretor presidente do Instituto Butantã, Isaias Raw, fala sobre a sua vida e a carreira de pesquisador, na seção Coisas que eu queria saber aos 21 anos. Leia abaixo o relato: "Eu sempre fui muito independente, não esperava conselho de ninguém. Aos 11, 12 anos, tinha um laboratório no quintal de casa, tirava o coração dos sapos e todas as crianças do bairro queriam ver isso. Aos 21 anos, já era um pesquisador. Não havia ninguém para me ensinar. Aprender a aprender é fundamental. Inventar as coisas sozinho é muito difícil. Os núcleos de pesquisa se formam quando tem alguém que lidera. Mas eu comandava um laboratório na faculdade. Ninguém saberá explicar por que, mas no 2º ano do curso de Medicina da Universidade de São Paulo, aos 19, eu já dava aulas para o 1º. Eu herdei o departamento, que naquela época se chamava Química Physiológica. Estava vazio e tive que reinventá-lo. O mais difícil na pesquisa é saber formular uma pergunta, e nisso um professor pode ajudar. Mas acho que o que se ganha com orientação perde-se em criatividade. Ao entrar na universidade, os alunos deveriam já saber como é o método científico, para que possamos formar pessoas críticas, que observem e tirem conclusões. Depois, precisamos absorver esses doutores. Mas, a cada 10 mil que formamos, deve ter uns 9 mil desempregados ou subempregados. A universidade não tem renovação e a indústria não tem doutores. Ela prefere comprar o pacote pronto. Nos Estados Unidos o sujeito ainda tem a opção de ir para a indústria. Aqui, nossos empresários são mais primitivos e compram a pesquisa. Já as multinacionais eliminam a concorrência comprando quem tenta desenvolver tecnologia, como aconteceu com a Biobrás, que fabricava insulina. Ela foi vendida a uma multinacional. Isso tirou a concorrência. Não é um mundo simples nem ético. Isso é uma coisa que se aprende com a vida. Toda essa bagunça que eu vivi me deu outra visão de mundo, que é dizer o que eu posso fazer e levar para a sociedade. Aprendi tecnologia saindo da ciência básica. Nem todo mundo tem que seguir necessariamente esse tipo de carreira. Mas eu me divirto muito."

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