Divulgação/ Seduc-Am
Divulgação/ Seduc-Am

Após retomar aulas presenciais, AM tem 7,6% de profissionais da educação infectados pela covid

Professores e pais de alunos relatam medo de contágio nas escolas; volta ocorreu no ensino médio, mas governo suspendeu retorno do fundamental

Álisson Castro, Especial para o Estado

01 de setembro de 2020 | 15h00

MANAUS - Três semanas após a volta das aulas presenciais no ensino médio nas escolas estaduais do Amazonas, 7,6% dos profissionais de educação da rede testaram positivo para o novo coronavírus. Os dados foram apresentados pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) do Estado nessa segunda-feira, 31. A rede pública amazonense foi a primeira a retomar classes presenciais no Brasil, em 10 de agosto, para alunos do ensino médio da capital. Já os colégios particulares voltaram em seis de julho na cidade. O diagnóstico de infecções tem elevado a apreensão de professores e pais de alunos e o sindicato de trabalhadores do setor já pediu o retorno das classes totalmente remotas. 

A gestão Wilson Lima (PSC) previa o retorno do ensino fundamental da rede estadual na semana passada, mas adiou os planos. O próprio governo reconheceu, em comunicado de 21 de agosto, que cerca de 60% dos colégios já estavam adaptados para implementar as medidas sanitárias - o plano estadual prevê, por exemplo, instalar mais pias e totens de álcool em gel, além de reduzir o número de alunos por turma. 

O último balanço de exames feitos pelo governo indicou 2.114 testes realizados entre profissionais de educação, com uso de testes rápidos, e 162 diagnósticos positivos. A FVS afirmou nessa segunda que mais 20 técnicos vão integrar a testagem, para ampliar a capacidade técnica do Estado.  Só na Escola Estadual José Bernardino Lindoso, zona leste de Manaus, o governo verificou 28 exames positivos, mas descartou surto na escola. Nas escolas Estadual Severiano Nunes, na Zona Centro-Oeste, e Samuel Benchimol, na Zona Norte da capital amazonense, são dez casos da doença em cada unidade de ensino. 

Professora de História no colégio, conhecido como Quarentão, Júlia Cristina Melo, de 47 anos, ainda está em tratamento. Diagnosticada no último dia 24, ela leciona para alunos do ensino médio e disse ter sabido da doença após um grupo de docentes cobrar testes para os profissionais.  “Eu estava sentindo muitas dores de cabeça, cansaço e fadiga, mas só atentei quando dois colegas fizeram teste e deram positivo. A partir daí, os demais professores exigiram que o Estado fizesse teste sob ameaça de nenhum deles voltar às salas de aula", contou. "Na segunda (24), finalmente, a escola concordou em testar os professores."

“O governo quer mostrar que a vida está voltando ao normal, por isso a insistência em manter escolas funcionando", afirmou a professora de ensino fundamental Raicele Ferreira Monteiro, de 46 anos, que teve o vírus em abril. "O problema é que um professor pode contaminar ou ser contaminado em sala de aula e os alunos voltam às casas deles sem sabermos se mantêm todos os cuidados necessários para evitar proliferação da doença." 

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Amazonas (Sinteam) pediu retorno ao modelo exclusivamente online. “É, no mínimo, uma insensibilidade do governo. Queria saber se o governador, o secretário de educação, os deputados e a presidente da FVS deixariam seus filhos irem para uma escola tendo essa informação”, questionou a presidente do Sinteam, Ana Cristina Rodrigues.

Pais de alunos também relutam em retornar. A dona de casa Josilene Soares da Silva, de 41 anos, optou por manter as aulas online e assinou um termo na Escola Estadual Cid Cabral da Silva em que se compromete a prestar assistência aos filhos no período das aulas não presenciais. “Uma doença que não tem vacina nem cura. Não vou arriscar mandando meus filhos à escola sem saber se o local oferece todas as condições necessárias para o retorno das aulas."

Um dos coordenadores do estudo Curva epidemiológica da Covid- 19 em Manaus, professor do Departamento de Matemática e Estatística da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Alexander Steinmetz informou que está preparando mais uma pesquisa sobre a pandemia em Manaus. À reportagem do Estadão, ele adiantou dados do estudo indicando que 20% da população da capital já contraiu a doença, o que corresponderia a 436 mil pessoas.

“Fizemos esta estimativa em meados de agosto e estamos finalizando um estudo mais aprofundado sobre a pandemia na Capital. Com o retorno das aulas, deve haver uma aumento de óbitos, mas nada que se compare aos registrados em abril deste ano”, explicou Steinmetz.

O risco de elevação do contágio com a reabertura de escolas tem assustado gestores, professores, pais e alunos em várias partes do mundo. Embora estejam fora do grupo de risco para a covid-19, crianças podem ter carga viral mais alta, quando infectadas, e maior capacidade de transmissão, segundo recentes estudos científicos. Outra preocupação é que grande parte delas desenvolvem uma forma assintomática da doença. No exterior,  pais e mães brasileiros relatam que a volta às aulas envolveu confiança na decisão das autoridades. Nesta semana, a cidade chinesa de Wuhan, onde os primeiros casos do novo coronavírus foram registrados em dezembro, retomou classes presenciais

Secretaria de Educação diz investir em testagem e notificação por app

A Secretaria de Estado de Educação e Desportos do Amazonas (Seduc) disse que, além da testagem dos professores, o governo tem o Programa Vigilância Ativa nas Escolas, por meio de um aplicativo, que permite notificação imediata de casos suspeitos dentro dos colégios. “Nesse âmbito, há uma frente de acompanhamento mais detalhado que gera, inclusive, coleta para realização de exames por RT-PCR (molecular, do tipo mais preciso), que detecta a presença do vírus na fase ativa. Até a última sexta-feira, 71 dos testes realizados testaram negativo para a doença”. 

Segundo a pasta, o trabalho também serve para que a FVS-AM realize a investigação epidemiológica para identificar a possível origem da contaminação do profissional que foi testado positivo no exame RT-PCR. O único teste positivo registrado constata que a pessoa teve contato com um infectado na família, ainda conforme o governo, sendo descartada contaminação no âmbito escolar. 

A FVS-AM informou dados de testes em profissionais de educação da rede estadual, em Manaus, correspondente ao período de 18 a 28 de agosto. Foram realizados 2.114 testes rápidos para diagnóstico da doença neste grupo profissional. Dos testados, 2.037 estavam negativos ou fora do período de transmissão, o que corresponde a 96,4%. Apenas 162 (7,6%) estavam com infecção recente.

Questionada sobre o retorno de professores contaminados antes do período de 14 dias, a Seduc afirmou que a informação não procede. “Nenhuma Coordenadoria Distrital está orientada a interromper o período de isolamento social. A secretaria solicita que sejam enviados os nomes dos servidores afastados e de quem está tentando interromper o período de isolamento." A rede estadual tem 598 escolas, com cerca de 445 mil alunos. 

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