Atraso na fala leva crianças ao consultório e confunde pais após quarentena

Atraso na fala leva crianças ao consultório e confunde pais após quarentena

Isolamento e estresse da pandemia também afetaram crianças pequenas, de até 3 anos; profissionais tentam avaliar contexto familiar

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 14h00

Preocupados com atrasos na linguagem após a quarentena, pais de crianças pequenas procuram consultórios de pediatras e psicólogos. Também pedem ajuda às escolas. A situação confunde as famílias e até os médicos, que ainda não sabem medir o tamanho do impacto do isolamento no desenvolvimento dos pequenos.“Vemos no consultório crianças com atraso na linguagem. Os pais chegam apavorados achando que é autismo e não é. São consequências da pandemia”, diz Magda Lahorgue, presidente do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).  

Diante da demanda das famílias, os pediatras agora precisam entender se as questões relacionadas à linguagem ou outros comportamentos regressivos nas crianças são transitórios. Em muitos casos, eles têm origem na forma como pais e filhos se organizaram na pandemia. "Quando vamos avaliar, são crianças que apenas ficaram sem estímulo adequado." Mesmo que os pais tenham trabalhado em casa, nem sempre há interação e é comum o uso excessivo de equipamentos eletrônicos, diz Magda.

Estudo da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) indicou que 27% das crianças de 0 a 3 anos voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas na pandemia, segundo a percepção dos pais. Entre as regressões de comportamento estão chorar muito, voltar a fazer xixi na roupa e falar menos. 

Parte do trabalho dos profissionais é sugerir que as famílias tentem promover os estímulos para, depois, avaliar se ocorrem avanços. Johny Santos, psicólogo e supervisor da Clínica Accogliere, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, diz que houve um boom de procura de atendimento para crianças, incluindo as mais novas, de até 3 anos, a partir de fevereiro. 

As consequências do isolamento angustiam os pais, encaminhados à clínica por pediatras para investigar questões como atrasos na fala, perda da habilidade de se alimentar e redução da autonomia. O trabalho de fonoaudiólogos também é requisitado.  

Nas escolas, crianças pequenas retornam com questões que antes não surgiam. Diretora pedagógica do espaço ekoa, escola de educação infantil na zona oeste de São Paulo, Ana Paula Yazbek percebe que as crianças chegam agora falando frases menos complexas. A situação não é encarada pelo colégio como algo preocupante, mas que demanda atenção e observação dos professores. O silêncio dos pequenos, diz Ana Paula, também deve ser respeitado como um sintoma de um período de dificuldades e adaptações pelo qual todos - crianças e adultos - estão passando.   

Com as chupetas por baixo das máscaras, as crianças retornam ao Colégio Rio Branco, em Cotia. Os profissionais não veem dificuldades dos pequenos para se separarem dos pais, mas notam outras mudanças. "Crianças que tinham tirado a fralda voltaram a usar. Tinham deixado e chupeta e voltaram muito apegadas a ela", conta Rosemary Vercezi Sertório, orientadora educacional da educação infantil. Há também, segundo Rosemary, um grupo de alunos que desenvolveu menos a fala do que poderiam. A escola investe em atividades de acolhimento e expressão dos sentimentos. Também tenta ir com calma - proibir a chupeta, por exemplo, não é a melhor estratégia.  

Além do contato com outras crianças, o retorno ao colégio ajuda a reconstruir a rotina. “É um sinal concreto de recuperação de uma vida interrompida por mais de um ano”, diz Lino de Macedo, psicólogo e integrante do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância. Mas, para fazer frente a questões como regressões ou atrasos no desenvolvimento, a volta não deve focar em tarefas a cumprir ou matérias. “Deve ser com acolhimento afetivo, social. O cognitivo aguenta esperar”, completa o assessor científico do Instituto Pensi.   

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