Após erros, fiscais do Enem foram avisados sobre o que fazer com 38 minutos de prova

Cespe alertou sobre falhas no exame e no gabarito do exame em e-mail enviado no sábado a 5.246 supervisores

Carlos Lordelo, Estadão.edu

11 Novembro 2010 | 20h53

A orientação do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) sobre como os fiscais de prova do Enem deveriam proceder diante dos problemas identificados no sábado - cartão-resposta com cabeçalho invertido e impressão defeituosa de parte dos cadernos de questões amarelos - chegou, por e-mail, 38 minutos depois de iniciado o exame. A mensagem ENEM 2010 - URGENTE, a que o Estadão.edu teve acesso, diz: “Ao que parece, algumas folhas desse caderno (amarelo) estão misturadas com o caderno de questões do tipo branco.”

 

 

O consórcio formado pelo Cespe e pela Fundação Cesgranrio foi contratado por dispensa de licitação para aplicar e corrigir as provas. No despacho em que suspendeu o Enem, na segunda-feira, a juíza federal Karla de Almeida Miranda Maia atribuiu ao Inep – órgão responsável pelo exame – e ao consórcio a culpa pelos erros.

 

O Cespe aplicou os testes em 13 Estados e no Distrito Federal. Em nota, o órgão, vinculado à Fundação Universidade de Brasília, disse que os problemas só foram detectados após o início do exame. “A partir de então, o Cespe encaminhou orientações às suas 5.246 coordenações locais pelos meios possíveis (telefônico, mensagens de e-mail e SMS), informando os procedimentos a serem adotados”, informou.

 

O e-mail foi enviado aos supervisores para alertar das falhas e apontar “soluções possíveis”. Quanto à diferença de numeração das questões na prova e no cartão-resposta, a mensagem pede para “desconsiderar o subtítulo (...) que identifica as áreas”. No sábado, os candidatos responderam a 90 itens de Ciências Humanas e Ciências da Natureza.

 

Segundo supervisores ouvidos pelo Estadão.edu, as primeiras instruções vieram dos coordenadores locais após a entrega dos testes aos candidatos.

 

“Até ligamos para o Cespe em Brasília, mas só dava ocupado”, contou uma fonte de Aracaju, que trabalhou numa escola em que “quase todas” as provas amarelas tinham problemas. “Só vi o e-mail na segunda-feira. Não fui orientada a levar computador para a escola. Nem temos como ficar abrindo o e-mail, trabalhando num concurso grande como esse.”

 

O assistente administrativo Rodrigo Alves da Silva, de 27 anos, foi um dos que receberam a prova amarela no sábado. Ele só percebeu as falhas quando chegou à questão 25. “Vi que a página do lado era exatamente a mesma. Por coincidência, só nessa hora que entraram na sala para falar dos defeitos”, conta.

 

Rodrigo pegou um caderno rosa e um novo cartão-respostas. “Já tinha feito boa parte da prova e precisei preencher tudo de novo. Fiquei confuso”, diz o candidato, que defende a anulação do exame. “O Enem melhorou ao avaliar o ensino médio e servir de vestibular, mas não pode cometer erros grosseiros como esses.”

 

Em Sergipe

 

Na segunda-feira, o ministro da Educação, Fernando Haddad, disse que houve “um relato mais concentrado” de problemas com a prova amarela em uma escola em Sergipe.

 

Para o presidente da Federação dos Estabelecimentos Particulares de Ensino de Sergipe (Fenense), José Joaquim Macedo, o Estado “foi um grande foco de problemas”. “O Enem é uma ideia excelente. O problema é controlar sua dimensão”, afirmou Macedo. Em Sergipe, 50.345 estudantes se inscreveram no exame.

 

Ao Estadão.edu, o coordenador de aplicação em uma outra escola de Aracaju afirmou ter substituído todos os cadernos de questões amarelos, até mesmo os que não tinham erros de impressão. “Fiz isso logo no início e dei mais meia hora de prova. Precisava apagar o incêndio.”

 

Em outro colégio da capital sergipana, o supervisor não autorizou a prorrogação do tempo de prova. “Trocamos os testes assim que recebemos a orientação da coordenadora”, explica.

 

“Essa movimentação toda atrapalhou? Claro que sim. O aluno não sai 100% confiante nas medidas que tomamos. Tanto que a abstenção no segundo dia foi maior. Acho que os candidatos já previam a possibilidade de o Enem ser anulado”, comentou o responsável por outra escola particular.

 

O Ministério Público Federam em Sergipe (MPF-SE) ainda não recebeu nenhuma denúncia sobre irregularidades ou problemas ocorridos no Enem 2010.

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