Após confronto, alunos repensam estratégias de mobilização

Eles temem perder controle do movimento com a infiltração de black blocs; sindicato ameaça ir à Justiça contra Estado, que o ligou a conflito

Isabela Palhares e Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Após o protesto mais violento desde o início do movimento contra a reorganização escolar da gestão Geraldo Alckmin (PSDB), os estudantes decidiram repensar as estratégias de mobilização. O receio é perder o controle com a infiltração de black blocs nos atos de rua, sobretudo após o confronto com a Polícia Militar de quarta-feira, 9. 

Heudes Oliveira, de 18 anos, aluno da Escola Estadual Fernão Dias, em Pinheiros, na zona oeste da capital, acredita que a presença de black blocs prejudica a imagem do movimento. “Estamos avaliando novas ações, novas estratégias de protesto em que a gente tenha mais controle”, diz. “Foi desnecessária a confusão. A manifestação estava acabando depois de quatro horas pacíficas. Os estudantes já estavam dispersando.”

No ato de quarta, black blocs entraram em confronto com a Polícia Militar na Praça da República, na frente da Secretaria da Educação. Dez pessoas foram detidas.

Oliveira disse que, apesar de insatisfeitos com a proposta de Alckmin de suspender a reorganização da rede - os alunos querem o cancelamento -, há “divergências” no grupo quanto a manter ou não os colégios ocupados. A escola foi a primeira invadida na capital e se tornou símbolo de resistência estudantil, após ser cercada por PMs.

Os alunos da Escola Maria José, na Bela Vista, região central, também vão discutir novos rumos para os protestos, por temer que tumultos com black blocs atrapalhem. “No protesto, por exemplo, eram muitos fazendo baderna”, diz o aluno Caio Freitas, de 18 anos.

A Escola Silvio Xavier Antunes, no Piqueri, na zona norte, foi desocupada nesta quinta, após 28 dias. “Cumprimos o papel de pressionar o governo. E atingimos o objetivo imediato, de não fechar a escola”, diz a aluna Dafine Cavalcante, de 17 anos, que pretende retomar a mobilização em 2016.

Violência. Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), os dez detidos - seis menores - foram liberados no mesmo dia após um Termo Circunstanciado por desobediência. Um dos adolescentes foi detido por um segurança do Metrô na Estação Sé, com pedras na mochila. Ele negou que tivesse praticado vandalismo e foi liberado.

Além dos alunos, a repressão da PM foi alvo de críticas de grupos que acompanharam a ação. “Dos protestos de 2013 (contra o aumento da tarifa de transporte) para cá, a PM evoluiu pouco, não sabe dialogar”, diz Frederico, de 22 anos, do Movimento Passe Livre, que esteve no ato.

Ao fim da manifestação, PMs invadiram o Teatro de Arena Eugenio Kusnet, no centro, e agrediram três jovens com socos e cassetetes, segundo relatos. Em nota, a Fundação Nacional de Artes (Funarte), responsável pelo teatro, repudiou “a ação arbitrária e violenta” da polícia. A Funarte exigiu explicações e lembrou que o teatro era palco de luta contra a ditadura. “Foi brutalidade”, diz Eugênio Lima, diretor musical do teatro, que dava aula no momento da invasão. 

Necessária. A SSP manteve o posicionamento de quarta, em que classifica a ação da PM como “absolutamente necessária” após “diversos manifestantes iniciarem depredação ao patrimônio público, agressões contra policiais, com pedras, paus e rojões, destruição a propriedades privadas e atos de vandalismo explícito”. E não se manifestou sobre a invasão do teatro. Segundo a pasta, a “atitude de grupos de manifestantes deixou clara a motivação política e criminosa, com diversos black blocs com o rosto encoberto, integrantes da Apeoesp e pessoas ligadas a partidos políticos”. 

A Apeoesp, maior sindicato docente, acusa o governo de “criminalizar” a entidade e ameaça ir à Justiça contra as acusações “irresponsáveis”. O ouvidor das Polícias do Estado de São Paulo, Júlio César Fernandes, vai pedir à Corregedoria da PM e ao Ministério Público que investigue a ação dos policiais - incluindo a invasão do Teatro de Arena - e a infiltração de black blocs no protesto. 

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