Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Após 2 anos, até veteranos pisam pela 1ª vez na faculdade

Estudantes enfrentam euforia e obstáculos na adaptação ao retorno dos câmpus, após 2 anos de ensino remoto, por causa da covid-19

Ítalo Cosme e Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2022 | 05h00

Eles estão se familiarizando agora com uma sala de aula do ensino superior, mas não são calouros. Alunos de segundo e terceiro anos de faculdades paulistas voltaram a vivenciar na última semana as primeiras experiências presenciais, já que ingressaram na universidade em meio às restrições impostas pela pandemia.

A estudante Bianca Ramos de Sousa, de 25 anos, aproveitava para fazer a primeira compra de acessórios da atlética da Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, na quinta-feira. “Fui perguntar o que eles tinham de camiseta, disseram: ‘Tem da (turma) 194 e da 195’. Da 193, já não tem mais nada. A gente brinca que nunca fomos calouros.”

Ela entrou na faculdade no primeiro semestre de 2020. Até chegou a ter aulas presenciais. Mas quando a pandemia estourou, não precisou mais se deslocar de São Bernardo para a capital. As aulas se tornaram completamente remotas. Hoje, ela já está no 5.º período. “Com a pandemia, você continua dentro da sua bolha, dentro da sua casa. Você perdeu muitas oportunidades que teria dentro da faculdade.”

O retorno também está sendo o momento de encontrar amizades antes apenas virtuais. “A gente até brincou que, quando nos reencontrássemos, íamos levar aquelas ‘bolinhas’ do Google Meet coladas na camiseta, para um reconhecer o outro.” A recepção, conta, foi calorosa, com abraços e sorrisos por baixo das máscaras. “Aqui é um outro mundo”, diz, apontando para o prédio ao redor.

A estudante Arlete Ferreira, de 21 anos, vive a euforia de retornar às aulas presenciais. Agora no terceiro ano, a jovem tenta reconstruir as relações e readaptar-se à USP, onde cursa Letras com habilitação em Japonês. O caminho é contrário ao que fez quando a pandemia da covid-19 começou, e ela precisou apegar-se à própria casa como um ambiente acadêmico. “Eu fico eufórica me preocupando de que preciso estudar em casa.” 

Já a paulistana Maria Eduarda Bonatti Leonardi, de 20 anos, quis conversar no Salão Nobre da São Francisco. A ampla sala tem mobiliário de estilo neocolonial, de 1947. “Foi aqui que tudo começou. A gente é recepcionado neste salão enorme, gigantesco. Você se sente muito pequeninho e pensa: ‘Isto aqui é a minha faculdade.

É aqui que vou ficar 5 anos e ter todas as experiências’.” Não foi isso que aconteceu. “Foi muito decepcionante”, afirma ela, que entrou no Direito no primeiro semestre de 2020. Durante os dois primeiros anos do curso, a realidade dela foi ficar em casa, na frente de um computador. “Eu sentia que estava na São Francisco e, ao mesmo tempo, sentia que não estava.” E estudar de casa foi um desafio. “Tenho TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade).” 

Recepção

O estudante Thiago Oliveira, de 20 anos, do terceiro ano de Engenharia Química na Escola Politécnica (Poli-USP), diz que está se situando no câmpus novamente somente agora. Na semana passada, ele participou da recepção da universidade. Foi o momento em que a instituição tentou acolher novamente os estudantes – e receber três gerações de calouros. “O Centro de Práticas Esportivas foi o que mais me encantou e eu pude conhecer melhor.” 

Larissa Fontes, de 20 anos, discente de Engenharia Mecatrônica desde 2020, também aproveitou para explorar os espaços físicos da universidade. A jovem deixou o simulador do computador para colocar no ar, de fato, os drones inteligentes. Ela integra o projeto de extensão Skyraps. “Nós estamos colocando em prática o que não fizemos nos últimos dois anos. E isso é o mais interessante da universidade: o contato pós aula”, reflete. E complementa que “muita coisa muda quando vamos para o presencial”. “Este formato me coloca perto dos professores, de mais assuntos, e me permite ter opções do que eu quero fazer.”

Aluno de Ciência da Computação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desde 2021, Ygor de Jesus, de 19 anos, reforça a fala de Larissa. “É o restaurante universitário, o café, as siglas, as artimanhas que só o aluno entende. Estar na sala de aula aumenta minha capacidade de comunicação”, pontua ao dizer que é tímido e quase não tinha amigos durante o ensino remoto.

Depois de mudar-se da capital São Paulo para o município onde estuda, Ygor decidiu ajudar outros colegas. Nos momentos livres no início da semana, buscou publicações no Facebook de estudantes que precisavam de lugar para ficar. “Aqui perto de onde eu moro ainda tem locais livres.” 

Os irmãos Henrique e Rodrigo Tavares, de 23 e 20 anos, estudam o quarto ano de Engenharia Elétrica. A dupla já tinha cursado presencialmente um ano do curso quando tiveram de retornar ao Estado do Pará, onde vivem com a família, por conta da suspensão das aulas presenciais. Pelas incertezas, acharam que a suspensão das aulas não demoraria tanto. E, por isso, decidiram manter o contrato com a locadora do imóvel e garantir o apartamento onde viviam. No fim de 2020, perceberam que a situação poderia se prolongar ainda mais. 

A dúvida dos Tavares foi se mantinham ou suspendiam o contrato. Por precaução, decidiram entrar em acordo para não pagar o aluguel, mas honrar outras taxas obrigatórias para o locador. “Nós chegamos aqui e tudo tinha trocado de cor. Havia uma camada de areia em todos os locais. Foram vários dias de muita faxina”, diz Rodrigo que voltou ao local em 1.º de março.

Sobre todo esse processo de voltar à casa, à cidade e à universidade bate saudades, reconhece Henrique que também destaca que a sensação é de transição, como se fosse a primeira vez. “A diferença é que nós saímos da universidade já sabendo o funcionamento de toda a estrutura, como laboratórios, centros acadêmicos, e tendo relacionamento com professores, mas essas três gerações só se conhecerão agora”, diz o mais velho.

“No início do curso, nós brincamos que ‘o aluno não pode perder a sensação de sentir o cheiro dos componentes elétricos queimados’”, diz o jovem de 20 anos, que perdeu sete disciplinas práticas em laboratório, mas agora buscará recuperar as experiências. 

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