Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Aplicativos ajudam família a controlar agenda e atividades

Para pais, rotina pode ser acompanhada mais de perto; porém, especialista alertam para controle excessivo

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

30 Março 2014 | 21h48

SÃO PAULO - Cada vez mais procuradas por alunos e professores, as novidades tecnológicas também servem para facilitar a vida dos pais ou aproximar as famílias do cotidiano do colégio. Já são comuns aplicativos que permitem monitorar, a qualquer horário e de fora do colégio, notas, atrasos, faltas e até se a van escolar trafega na velocidade permitida. Entre os especialistas, o receio é de que haja controle excessivo e invasão de privacidade.

O aplicativo SophiA, por exemplo, fez com que Pedro Aranha, de 12 anos, aposentasse a agenda de papel. Com a ferramenta, que organiza as atividades da semana, o pai também acompanha a rotina do filho no colégio. "Facilita a organização. Na tela do celular, posso ver tudo que haverá no dia seguinte", conta Sérgio Aranha, de 47 anos, professor de Geometria. Segundo ele, a novidade não deve preocupar tanto os alunos. "Essa geração já está mais acostumada com a velocidade com que circulam as informações", avalia. Para o adolescente, o app é motivo para redobrar a atenção. "No início, fiquei um pouco ansioso. Sei agora que meu pai acompanha ainda mais o que faço na sala", diz.

O app é uma novidade na Esfera Escola Internacional, de São José dos Campos, na Grande São Paulo, onde Pedro estuda, Há pouco menos de um mês, o recurso está disponível gratuitamente aos pais dos alunos da escola, que fez parceria com a empresa de recursos virtuais. No sistema, os professores postam as atividades, boletins e ocorrências, como atrasos.

Para a diretora do colégio, Andrea Andrade, a ferramenta é mais uma opção para falar com as famílias. "O pai vai saber do desempenho e situações comportamentais de sala de aula com mais agilidade", explica. "Mas não elimina outras formas de comunicação, principalmente para questões mais sérias", ressalta. O app já é usado em duas escolas da cidade.

Sem fila. Já a psicóloga Patrícia Gross, de 37 anos, conseguiu economizar alguns minutos do seu dia com o aplicativo Filho sem Fila, já usado em oito escolas de São Paulo e da Região Metropolitana. O funcionamento é simples: o pai avisa pelo aparelho quando está perto do colégio e o professor responsável pelas crianças leva o aluno à portaria.

Mãe de duas crianças, de 5 e 3 anos, Patrícia conta que as filas acabaram na porta da Escola Internacional Alphaville, em Barueri, Grande São Paulo, que tem 705 estudantes. "Agora nem preciso sair do volante porque eles já colocam meu filho no carro", afirma. "Antes demorava quase 15 minutos". O Filho sem Fila, que começou a ser usado em outubro de 2013, está disponível e é gratuito apenas para as escolas que fizeram convênio com a empresa desenvolvedora do app.

Vigilância. O aplicativo ZoeMob é outra solução para quem não quer perder o filho de vista nem por um segundo. Pelo app de rastreamento, pais podem ver se os filhos chegaram à escola ou se atrasaram para alguma atividade. A ferramenta dedo-duro consegue identificar ainda, com as informações sobre os locais cadastrados, se a van que leva as crianças à escola anda em velocidade alta. "O pai, que está longe do filho a maior parte do tempo, poderá saber quase tudo sobre ele", afirma o desenvolvedor do aplicativo, Daniel Avizú.

Outra mágica permitida pelo app é saber os tipos de mensagens trocadas pelo filho no celular - sem a necessidade de vasculhar o aparelho enquanto a criança está no banho. "Há reconhecimento de texto e fonético para descobrir quando palavras como 'álcool' ou 'cerveja', por exemplo são digitadas", explica Avizú.

Embora tenha sido criado no Brasil, o app tem mais usuários no exterior: 97% dos 6,75 milhões de clientes são de fora do País. Criado em 2011, a procura dos brasileiros pelo ZoeMob aumentou nos últimos anos. Avizú também identifica mudanças comportamentais de um lugar para outro. "Nos Estados Unidos, os pais começam a monitorar mais cedo, entre 7 e 16 anos. Já no Brasil, a faixa mais comum é entre 11 e 17", relata. O app, disponível no App Stores e no Google Play, é comprado individualmente e o preço varia de lugar para lugar. No Brasil, ele custa US$ 4 (aproximadamente R$ 10).

Riscos. A psicóloga e professora da PUC-SP Ana Luiza Mano alerta para os riscos do exagero tecnológico. "O perigo é a paranoia: ficar obcecado em monitorar cada passo do filho", aponta. De acordo com ela, é importante dosar o uso das ferramentas, o que nem sempre é fácil, também para evitar desgaste nas relações familiares.

A especialista ainda recomenda aos pais não substituir o diálogo pelo monitoramento a distância. "Principalmente com os mais velhos, é necessário fazer com que eles compreendam os riscos de cada situação. Sempre haverá alguma maneira de burlar o controle", afirma Ana Luiza.

Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Marcelo Giordan, o monitoramento causa tensão entre os pais e os filhos no começo, mas pode render bons frutos. "Essa participação deve funcionar como um ponto de partida para que os pais avaliem, de maneira mais ampla, questões da vida escolar", aponta.

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