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Renata Henedino, aluna do mestrado na UFMG, defende representatividade: 'Só tive duas professoras negras desde a graduação'  Washington Alves/Estadão

Pelo menos 31 universidades federais têm cotas para negros em mestrados e doutorados

Menos de um terço dos alunos de pós-graduação no Brasil é preto ou pardo; especialistas afirmam que diversidade melhora qualidade da pesquisa e traz mais impacto social

Victor Vieira, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 11h00

Renata Henedino, de 24 anos, fala com saudade do laboratório, que parou de frequentar em março por causa da pandemia. Hoje uma segunda casa para a aluna de mestrado em Ecologia, a universidade nem sempre foi uma experiência fácil. "Entrei no curso de Ciências Biológicas em 2014 e tive um choque. Eram colegas que tinham feito intercâmbio, falavam duas, três línguas, muito diferentes de quem eu conhecia." A jovem, negra, comemorava a chegada ao câmpus, mas logo notou as dificuldades dali em diante. Isso porque a graduação foi só o início do percurso acadêmico: queria ser pesquisadora. 

Com as cotas, pela primeira vez, em 2018, universidades públicas tiveram mais da metade (50,3%) de negros na graduação. Já em mestrados e doutorados, o desnível é maior. Segundo balanço de 2019 da Capes, órgão do Ministério da Educação (MEC) que cuida desses cursos, só 29% dos alunos de pós-graduação eram pretos ou pardos, considerando os estudantes com dados disponíveis. Segundo o IBGE, 55,4% da população brasileira é negra.

Com o objetivo de ter mais diversidade na pesquisa, ações afirmativas também avançam em mestrados e doutorados. Ao menos 31 das 69 universidades federais têm normas gerais de reserva de vagas para negros em seus programas de pós, entre elas a de São Paulo (Unifesp), Brasília (UnB) e a de Minas (UFMG), onde Renata estuda. Em outras instituições públicas, as cotas não são regra geral, mas iniciativas de cada programa.

Diferentemente da graduação, em que há a lei federal de 2012, os modelos de cotas variam. Em algumas instituições, é obrigatória a ação afirmativa, mas sem porcentual definido de reserva. Nas federais com índice fixo, o valor varia de 10% a 50%, e muitas vezes incluem indígenas e pessoas com deficiência. Há possibilidade também de oferta de vagas extras. No Rio, uma lei de 2014 exige 12% de cota para negros e indígenas na pós das instituições estaduais.

Segundo Anna Carolina Venturini, pós-doutoranda e pesquisadora do AFRO-Cebrap, esse movimento ganhou força após uma portaria normativa do MEC, de 2016, que fomentava o debate sobre ações afirmativas na pós-graduação. Embora não exigisse as cotas, a portaria foi interpretada como obrigatória em muitas instituições. Em junho deste ano, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, chegou  revogar o texto, o que motivou forte reação do Congresso, do Ministério Público Federal e da comunidade acadêmica. A portaria acabou restabelecida.

Em várias instituições, não essa norma geral para todos os mestrados e doutorados, mas iniciativas dos próprios programas de pós - o número de pós com algum tipo de reserva de vaga cresceu de sete para 134 entre 2015 e 2018, segundo estudo feito por Anna Carolina no doutorado. São mais comuns nos cursos de Ciências Humanas e Educação do que em campos elitizados, como Medicina e Engenharia.

Como o ingresso na pós é mais complexo do que o vestibular, adaptações foram necessárias, como reduzir notas de corte ou permitir a certificação em idioma estrangeiro durante o curso, e não no início. "A maior parte dos programas replicou o modelo da cota da graduação, mas sem pensar se faria sentido", diz Anna Carolina.  Já a Capes disse, em nota à reportagem, que as ações de inclusão são de responsabilidade das instituições, "no exercício da autonomia universitária". 

Para Renata, a ação afirmativa ajuda a equilibrar a competição. Entre alunos mais pobres, o acesso à universidade é uma conquista, mas não garante as mesmas oportunidades. Filha de uma servidora pública e um motorista, que passou por vários períodos desempregado, ela equilibrava o tempo na graduação entre as aulas, a iniciação científica e o trabalho remunerado, em uma creche em Sabará, cidade vizinha de Belo Horizonte. "A gente nunca teve muita grana", conta. 

No grupo de pesquisa, foi voluntária por um ano até finalmente conseguir bolsa. "Meu professor era compreensivo, pois era difícil ir a algumas visitas de campo por causa do trabalho", diz ela, cuja pesquisa envolve analisar impacto do rompimento da barragem de Mariana (MG) na qualidade da água do Rio Doce. No futuro, os planos são de um doutorado e, depois, ocupar outro espaço na universidade. "Só tive duas professoras negras desde a graduação." 

Mais diversidade faz ciência inovar, afirma pesquisadora

O risco à excelência da pesquisa com a mudança no rigor do ingresso é um dos principais argumentos para criticar as cotas na pós. Ainda não há dados robustos sobre efeitos da reserva de vagas nessa área, mas estudos com cotistas na graduação não apontaram perda de qualidade. "Mais diversidade gera benefícios para a qualidade da ciência, que será mais inovadora e capaz de responder a problemas sociais do País", diz Anna Carolina. A multiplicidade de temas e abordagens trazida pelo novo perfil de estudante é apontada como vantagem.

"Até o sentido de meritocracia tem mudado. Não dá para falar em impacto só pelo número de artigos e citações, mas pelo impacto na sociedade", defende Charles Morphy, pró-reitor de Pesquisa da Universidade Federal do ABC (UFABC). A instituição também prevê ações afirmativas em mestrados e doutorados, mas não fixa um porcentual de vagas.

Envolvido em estudos sobre a covid-19, o virologista Anderson Brito, de 35 anos, exemplifica como a experiência pessoal pode ajudar no entendimento do trabalho. Nem sempre, diz ele, cientistas que desconhecem a realidade das favelas e bairros pobres percebem o alcance limitado da estratégia de isolar infectados em um cômodo da casa ou de trabalho remoto. "A pandemia trouxe essa realidade como um soco. A maioria dos brasileiros vive em casa de um ou dois cômodos, trabalha com o pé na rua", diz.

Filho de um motorista e uma servidora pública da periferia do Distrito Federal, em uma família vinda do Nordeste, Brito ingressou como cotista na graduação da UnB após quatro reprovações no vestibular. Era o único negro de escola pública da turma. Depois, seguiu sem cotas na carreira acadêmica, em um tempo em que ações afirmativas na pós ainda eram raras. Hoje, é pesquisador da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale (EUA), depois de passar pelo mestrado na Universidade de São Paulo (USP) e o doutorado no Imperial College, de Londres.

Brito destaca a importância das políticas de inclusão na universidade e da representatividade na sua trajetória. O único professor negro que teve na graduação inspirou o jovem a ir em frente. "Ele serviu como espelho. Tinha origens muito similares às minhas, de uma família periférica, que passou por dificuldades financeiras." E, segundo Brito, ambientes mais diversos favorecem não só quem consegue entrar, mas aqueles que olham de fora. "Percebo que, para muitos, sou um modelo de carne e osso", conta, ao citar três primos que garantiram uma vaga no ensino superior depois dele. "Certamente entraram pela capacidade deles, mas minha presença mostrou que aquilo era remotamente possível."  

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Temos de romper com o discurso de que cota é esmola, diz aluna negra do mestrado

Estudantes relatam desconfiança velada em ambiente acadêmico e medo de serem desqualificados por entrarem na universidade por ação afirmativa; políticas de permanência são necessárias para manter a inclusão

Victor Vieira, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 11h00

Ser aprovado em seleções concorridas, conduzir a pesquisa e entregar a dissertação são apenas uma parte do desafio de alunos negros na universidade. Muitos deles contam que também é preciso lidar com preconceito e desconfiança, ainda motivados pelo discurso de que ocupam uma vaga sem merecer. "A ação afirmativa é um direito, não um favor. Não entrei pela porta dos fundos da universidade", diz Paulina Gonçalves, de 51 anos, que ingressou por cota no mestrado em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2019. 

Com as cotas, pela primeira vez, em 2018, universidades públicas tiveram mais da metade (50,3%) de negros na graduação. Já em mestrados e doutorados, o desnível é maior. Segundo balanço de 2019 da Capes, órgão do Ministério da Educação (MEC) que cuida desses cursos, só 29% dos alunos de pós-graduação eram pretos ou pardos, considerando os estudantes com dados disponíveis. Segundo o IBGE, 55,4% da população brasileira é negra.

Com o objetivo de ter mais diversidade na pesquisa, ações afirmativas também avançam em mestrados e doutorados. Ao menos 31 das 69 universidades federais têm normas gerais de reserva de vagas para negros em seus programas de pós, entre elas a de São Paulo (Unifesp), a de Brasília (UnB) e a de Minas (UFMG).

Formada em Serviço Social, com experiência em pastorais sociais e com moradores de rua, Paulina voltou à sala de aula após 16 anos afastada da universidade. Segundo ela, a discriminação no ambiente acadêmico é mais velada. "Você percebe alguma tensão. Será que esse aluno não vai baixar o nível? É sutil."

E isso afeta a autoestima dos colegas, conta a estudante. "Tenho ouvido de alguns sobre certo receio de dizer que entraram por ação afirmativa. Temos de romper com esse discurso de que cota é esmola", defende. Na UFRGS, não há uma regra geral para reserva de vagas e a criação de uma regulamentação única está em debate na instituição. Dos 92 programas de pós, 18 têm algum tipo de ação afirmativa, conforme levantamento feito pela universidade em setembro.

Com uma trajetória acadêmica que começou pelas cotas na Universidade de Brasília (UnB) e foi até o Imperial College, de Londres, e Yale, nos Estados Unidos, o virologista Anderson Brito também reconhece o peso que tem o discurso de desqualificação dos cotistas. "Quando passei no vestibular, toda narrativa da falta de mérito roubou um pouco meu sentimento de vitória no início", lembra. "Por dois semestres, eu andava com meu boletim na mochila. Se alguém viesse questionar meu desempenho, eu teria aquilo como um escudo", afirma ele, de 35 anos, hoje no pós-doutorado e envolvido em pesquisas sobre a pandemia da covid-19. 

 

De curso preparatório a bolsas: ação afirmativa vai além da reserva de vagas

Reservar parte das vagas no edital do processo seletigo não é suficiente. Há o desafio de garantir o acesso de alunos mais pobres e, depois, que tenham condições de continuar estudando. Paulina, por exemplo, conseguiu a vaga no mestrado após cursar um preparatório para a pós-graduação oferecido pela própria universidade. "Antes, parecia coisa do outro mundo. O curso desmistifica, ao mesmo tempo em que nos dá informações", diz ela. 

Uma diferença em relação aos cotistas da graduação é que muitos estudantes, com o diploma universitário nas mãos, veem no mercado chance maior de renda do que na vida acadêmica, em que as bolsas de pesquisa pagam pouco e nem todos conseguem esse auxílio. Esses auxílios costumam ser distribuídas conforme o desempenho nos processos seletivos. Assim, alunos que mais precisam, do ponto de vista financeiro, podem ficar sem apoio. "A permanência depende de bolsa. E a bolsa depende de orçamento", diz Charles Morphy, coordenador do Colégio de Pró-reitores de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação das instituições federais de ensino. Segundo ele, com os cortes de verba nos últimos anos, diminui a capacidade de as universidades oferecerem auxílio. 

"Alguns programas de pós-graduação fazem uma priorização de bolsas para os cotistas também", diz Maria Márcia Bachion, pró-reitora adjunta de Pós-Graduação da Universidade Federal de Goiás (UFG), a primeira federal do País a adotar uma regra geral de cotas na pós-graduação, em 2015. "A bolsa é uma ajuda, mas quando a pessoa tem dificuldades financeiras, esse montante é muito insuficiente". Os auxílios da Capes para mestrado e doutorado são de R$ 1,5 mil e R$ 2,2 mil mensais, respectivamente. Os valores não são reajustados desde 2012. 

Procurada, a Capes, agência do Ministério da Educação (MEC) responsável pela pós-graduação, informou que as ações de apoio a estudantes de mestrado e doutorado são de responsabilidade direta das instituições. Entre outras medidas tomadas pelas universidades para a permanência, foi estender o direito ao restaurante universitário e à moradia estudantil aos alunos de mestrado e doutorado. 

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