Anulação de questões afeta candidatos mais competitivos, dizem especialistas

Perda de precisão é importante, mas, por ser pequena, afeta quem tem desempenho parecido

Cedê Silva, Especial para o Estadão.edu

01 Novembro 2011 | 14h58

As 180 questões do Enem são longas e exaustivas, mas é exatamente o tamanho da prova que a protege de distorções causadas pela anulação de algumas perguntas, dizem especialistas. Na noite de segunda-feira, 31, um juiz federal do Ceará decidiu anular 13 questões da prova, idênticas ou muito parecidas a questões distribuídas a alunos do Colégio Christus, de Fortaleza, poucos dias antes do Enem. O álbum de fotos com essas questões foi mostrado em primeira mão pelo Estadão.edu.

Para o professor José Francisco Soares, da Faculdade de Educação da UFMG, a Teoria da Resposta ao Item (TRI), metodologia empregada pelo Enem, "corrige distorções, mas não é milagrosa". Em sua avaliação, o número de questões do Enem é bem grande, o que confere segurança. Por outro lado, os candidatos a cursos muito concorridos (Medicina, por exemplo) ficam ou não com a vaga "por frações de segundo".

O professor Tufi Machado, do Departamento de Estatística da UFJF, destaca que o efeito da anulação das questões foi pulverizado, por afetar poucas questões de cada disciplina. "Se fossem 13 questões só de Matemática, por exemplo, a distorção seria mais grave", explica. Segundo ele, os alunos com níveis de proficiência muito mais baixos ou muito mais altos do que o necessário para resolver as questões anuladas foram pouco afetados. A anulação afeta os candidatos para os quais as questões eram um desafio - "estavam no seu nível de proficiência", diz. Machado ressaltou o fato de que, como as estatísticas sobre quantos candidatos acertaram cada questão não estão disponíveis, fica difícil fazer análises. Na sua opinião, o menos custoso seria reaplicar a prova apenas para os alunos do Colégio Christus.

Foram anuladas 3 questões de Ciências Humanas, 5 de Ciências da Natureza, 1 de Linguagens e 4 de Matemática. Na versão amarela, são as questões 32, 33, 34, 46, 50, 57, 74 e 87 (sábado) e 113, 141, 154, 173 e 180 (domingo). (As questões foram anuladas em todas as provas; os números são dados aqui apenas como referência). 

José Francisco Soares chama a atenção para dois outros aspectos da prova. "O que um jovem de 17 anos deve saber? Acabo de voltar do México e lá eles decidiram que a prioridade é o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Precisamos deste debate aqui também".

Ele ressalta ainda que o Enem deve atender a dois requisitos. "Como o Enem é uma avaliação do sistema como um todo, precisa dos pré-testes, para garantir que os exames sejam comparáveis. Isso tem que ser transparente. Mas como o Enem é também um concurso, exige sigilo".

Alunos. Estudantes que fizeram o Enem em todo o Brasil têm diferentes avaliações sobre a anulação das questões. João Alexandre Martins, de 17 anos, prestes a se formar na Escola Estadual Maria Carmelita do Carmo, em Macapá, considera a anulação injusta. "Quando fiz a prova, eu não fazia ideia de que essas questões tinham vazado", diz. "Não chegaram a mim nem aos meus amigos". Das 8 questões anuladas aplicadas no sábado, João acertou metade. Ele quer estudar Letras na federal do Amapá (Unifap).

Ricardo Delfino, de 26 anos, mora no Guarujá (SP), mas quer estudar Geografia no Rio - UFRJ ou UFF. Na primeira, 100% das vagas são pelo Enem. "A anulação foi ruim, eu acertei todas as 13, eram mais fáceis", reclama. Ricardo faz o Enem desde 2008, quando formou no Ensino Médio. "Graças a Deus, dessa vez o problema aconteceu quando eu já tinha feito a prova", conta, referindo-se ao vazamento da prova em 2009 e ao gabarito invertido em 2010. "No ano passado, começamos a prova com quase meia hora de atraso, até os fiscais se entenderem sobre como proceder". E em 2009, Ricardo ficou um fim de semana sem trabalhar (num bufê de festas infantis) por causa de uma prova que, no final das contas, foi adiada. "Este ano é a última vez que faço o Enem", desabafa. "Você faz a prova e não sabe o que vai acontecer".

Mas Hélida Macedo, de 19 anos, achou a decisão a mais justa, dadas as possibilidades. "Quem faz a prova gasta tempo e dinheiro. Nem todos os alunos tiveram acesso às questões antes do Enem, então não seria justo fazer de novo". Ela mora em Foz do Iguaçu (PR) e pretende uma vaga em Engenharia de Energias Renováveis na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila). Diz ter acertado 7 das 13 questões anuladas.

* Atualizado às 21h44 para corrigir erros nos 3º e 8º parágrafos

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