Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Angustiados, alunos criticam falhas no Enem

Para alguns, o exame é a grande chance de entrar na faculdade; para outros, a prova caiu no descrédito

Isis Brum, Jornal da Tarde

10 Novembro 2010 | 14h00

Se for anulado, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), suspenso anteontem pela Justiça Federal, terá roubado um ano de Maria Joselice Reis de Macedo, 35 anos. Em busca de uma chance de cursar psicologia, pediu demissão do restaurante onde trabalhava como recepcionista e decidiu que 2010 seria um período inteiramente dedicado aos estudos.

 

Sem emprego, Joselice passou a contar com uma ajuda financeira dos pais, entrou no cursinho Henfil, na unidade da Avenida Paulista, e se esforçou todos os dias do ano para sair-se bem nos vestibulares, especialmente o Enem.

 

A sensação da estudante, agora, é de perda de tempo e desalento. “Se tudo der errado, não sei se poderei abrir mão do trabalho no ano que vem e focar nos estudos. Eu me dediquei muito”, garante. “Essa prova é a única chance de passar numa faculdade para pessoas que, como eu, não tiveram dinheiro para pagar uma escola particular”, opina.

 

Faz 15 anos que Joselice deixou Macururé, na Bahia, em busca de um emprego melhor e de oportunidades de estudo. Instalou-se no Jardim Ângela, na zona sul. Ontem, ao ser informada pelo Jornal da Tarde sobre o cancelamento da divulgação do gabarito, a estudante lamentou a decisão da Justiça Federal. “Gostaria que essa prova continuasse válida e que aqueles que sentiram-se prejudicados pudessem ter uma nova oportunidade”, comenta.

 

Entre os estudantes, nem todos concordam com a manutenção parcial dos resultados. Muitos se irritaram bastante ao descobrirem que nem o gabarito oficial seria divulgado ontem. A vestibulanda Caroline Magalhães Lopes, de 19 anos, que tenta medicina, é favorável à realização de um novo exame para todos.

 

“Não confio mais no Enem e não acredito que será mantido o mesmo nível de dificuldade”, opina. “Se alguns alunos terão o direito de refazer a prova, quero ter esse direito também”, argumenta.

 

Caroline também questiona a decisão do órgão em proibir o uso de lápis, borracha e relógio durante o exame. Segundo ela, que realizou a avaliação em uma faculdade da Barra Funda, zona oeste, os fiscais não informavam o horário regularmente. Mas diz que alguns amigos puderam usar relógio de pulso e até lapiseira.

 

Aluno do Cursinho do Anglo, na Liberdade, região central, Álvaro Ferro Caetano, de 22 anos, sente-se injustiçado. “Como é que o MEC (Ministério da Educação) impõe tanto rigor com segurança, sendo que o órgão é totalmente desorganizado?”, critica. Ele concorda, porém, com o ministro Fernando Haddad, que afirmou, anteontem, que apenas os candidatos prejudicados deveriam refazer a avaliação. “Cancelar o Enem para todo o País é um absurdo”.

 

Coordenador de Vestibulares do Sistema Anglo, Alberto Francisco do Nascimento considera que a maioria dos alunos está ansiosa, mas não abatida. Para ele, há uma maratona de exames e os estudantes estão “olhando para frente”.

 

FRASES

 

"Essa prova é a única chance de fazer faculdade para pessoas como eu, sem dinheiro para pagar escola particular"

JOSELICE REIS, DE 35 ANOS, TENTA PSICOLOGIA

 

"Eu não confio mais no Enem e não acredito que será mantido o mesmo nível de dificuldade"

CAROLINE MAGALHÃES LOPES, DE 19 ANOS, VESTIBULANDA DE MEDICINA

"Como é que o MEC impõe tanto rigor com segurança, sendo que o órgão é totalmente desorganizado?"

ÁLVARO FERRO CAETANO, DE 22 ANOS, ESTUDANTE

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