Análise: Vandalismo deve ser punido com mão forte

Na opinião de historiador, protestos estudantis não devem admitir destruição do patrimônio da USP

Carlos Guilherme Mota, Professor emérito da Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas da USP

14 Novembro 2013 | 21h31

No recente episódio de ocupação e desocupação da reitoria da Universidade de São Paulo (USP), ocorreu um crime inafiançável: a depredação da sede de nosso Instituto de Estudo Avançados (IEA). Vale notar que o IEA não pertence à reitoria, tem autonomia e está provisoriamente no mesmo edifício, o que não vem ao caso.

Mas, ainda assim, foi objeto de uma das mais indevidas e abjetas ocupações pseudo-universitárias (pois o que ocorreu não foi nada universitário) de que se tem notícia no último meio século. Conseguiram, os predadores, perpretar façanha ainda maior do que uma outra, também inesquecível, que ocorreu durante o regime militar.

Com efeito, na manhã dessa segunda-feira, 11, e nos dias seguintes, fomos tomando ciência do que ocorrera no fim de semana na reitoria, quando recebemos fotos e depoimentos que davam conta da barbárie. Ou seja, da depredação brutal e boçal da sede do IEA, após invasão indevida e festim descabido, até o dia nascer.

Podemos entender que manifestações estudantis, e mesmo de funcionários e professores, sempre fizeram parte da vida universitária. E que agora, no compasso das manifestações sociais de insatisfação com os rumos da República, a escala das movimentos vem adquirindo novos contornos, inclusive com os black blocs e com usos de metodologias de ação que evocam historicamente os inícios de vários regimes

O que não se pode conceber é que o movimento estudantil tenha permitido transbordamentos inconfessáveis como o ocorrido no último fim de semana, com depredação de nossas instalações no câmpus, levando de roldão arquivos, computadores, documentos, pastas de pesquisas, arrombando portas, pichando e até furando paredes, estragando material resultante de longas e cuidadosas reuniões de trabalho, em fase de publicação. O prejuízo é incalculável. E mais: trata-se de ação criminosa, nem mais nem menos.

Incalculável é também o dano moral e psicológico que nos causou a devastação de salas de pesquisadores consagrados, como a do professor Aziz Ab’Saber, para citarmos um caso apenas. Mas todas nossas instalações foram visitadas pelo meliantes, digo, estudantes, inclusive o pequeno anfiteatro onde realizamos intensos e variados seminários e conferências abertas ao público, e gratuitamente! Como se sabe, trata-se de uma sede provisória, já precária per se, pois fomos “mudados”, sem consulta prévia, de nosso locus original do prédio da reitoria velha, aguardando a lenta, muito lenta construção do novo.

Enfim, é chegada a hora de se perguntar aos estudantes, frontalmente: o que se pretendeu com tal barbarização? Protestar contra o reitor atual? Contra o processo eleitoral? Contra o IEA e suas variadas e multifacetadas linhas de reflexão, pesquisa e socialização do conhecimento? Com o tempo, outras perguntas deverão ser feitas, e nós as faremos a vocês!, passado este duro e contrangedor momento: que tipo de formação tiveram?

O que aprenderam em suas casas, e em suas escolas e faculdades? E agora, que sistema universitário defendem, e pretendem implantar, no rastro desta cega destruição? E o nosso IEA, em quê precisamente ele os incomoda, ao ponto de terem-no tranformado em alvo de operação de guerra? Note-se que temos trazido para seus quadros e seus embates muitos intelectuais, do porte de Milton Santos, Aníbal Quijano, Jacob Gorender, Raymundo Faoro, Eric Hobsbawm, Moreno Fraginals, Mayana Zatz, Boaventura de Sousa Santos, Leyla Perrone-Moysés, para ficarmos em apenas nestes exemplos.

Agora, porém, caros estudantes, o problema tornou-se mais sério e grave. E dirijo-me à banda não-podre do alunado, que também deve assumir suas responsabilidades pelo ocorrido, em episódios altamente delituosos. Pois buliram não com um vespeiro, mas com a própria colmeia, onde se dá e se aprimora a produção e a crítica, haabitada por “abelhas” bravias.

Nosso IEA é independente, mas não é neutro, e não vamos tolerar esse padrão concessivo e “liberal” em que a USP, o Estado e a República estão empapados e acostumados. Como se trata de um próprio público em plena atividade, ou seja, do Estado, um espaço coletivo, com equipamento caro e uma memória pelos quais temos a obrigação de zelar, iremos apurar até o fim as responsabilidades por tais atoseivados de vandalismo boçal. E efetuar as devidas punições com mão forte, até o fim, para o que contamos com os poderes constituídos, que andaram fraquejando demais, e com o firme apoio da comunidade científico-cultural, nacional e internacional.

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