Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Análise: O Enade não é o Enem

A prova não é feita todo ano para todos os cursos. Mesmo se o pior aluno de Direito se formar em 2020, ele não poderá ser punido pelo ministro da Educação

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 16h03

Diferentemente do Enem, o Enade não foi pensado para avaliar o aluno e, sim, os cursos de graduação. Isso não quer dizer que tecnicamente a prova não poderia ser usada para isso, mas a proposta do ministro Abraham Weintraub não seria assim tão fácil de ser colocada em prática.  

Primeiro porque o exame não é feito todo ano por todos os estudantes de todos os cursos. As notas divulgadas agora são de 2018, quando foram avaliados cursos como Direito, Administração, Jornalismo. Essas mesmas áreas só serão testadas novamente daqui a três anos. Portanto, mesmo se o pior aluno de Direito se formar em 2020, ele não poderá ser punido pelo ministro da Educação.

Para que o exame passe a avaliar todas as áreas, todos os anos, ele precisa triplicar de tamanho, o que custa dinheiro. O Enem, por exemplo, que pode ser feito por todo mundo que termina o ensino médio custa cerca de R$ 500 milhões por ano. Já o Enade sai por volta de R$ 50 milhões. 

Em segundo lugar, se a nota ruim do Enade passar a condicionar a formutura ou não do estudante, o exame vai ganhar valor. O mesmo valor que ganhou o Enem, em 2009, quando passou de uma simples prova para avaliar estudantes para uma nota que serviria para garantir uma vaga na universidade. Pra quem não lembra, assim que o governo Lula mudou o objetivo do Enem, a prova foi roubada da gráfica e consequentemente anulada, depois que o Estado revelou a fraude.

Isso quer dizer que o Enade teria que ser feito com muito mais segurança do que tem hoje, o que implica em mais gente, mais tecnologia, mais dinheiro. O MEC não parece ter verbas sobrando para fazer crescer o exame, ilustre desconhecido de quem não está na faculdade e que recentemente teve sua qualidade questionada por órgãos internacionais.

O Enade faz parte de um sistema de avaliação do ensino superior instituído em 2004.Ele substituiu o Provão, criado pelo governo Fernando Henrique Cardoso nos anos 90, que também sofria boicotes sucessivos dos alunos. O slogan usado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) na época era o “o Provão não prova nada”. Formandos também eram obrigados a fazer o exame, como no Enade, mas não a responder as questões com dedicação. Muita gente entregava - e continua entregando - a prova em branco.

Quem se importa mesmo com o Enade são as universidades privadas, que usam a nota do curso para publicidade e atrair mais alunos. Há anos elas fazem lobby no governo federal para que a prova valha alguma coisa também para seus estudantes. Assim, eles passariam também a se preocupar com ela. Weintraub ora defende as faculdades particulares ora diz para elas se virarem, mas parece que o ministro pode ter sucumbido à pressão.

Ou não. As declarações de hoje parecem muito mais só declarações. Weintraub  gosta de falar para a plateia dos revoltados e "contra tudo que está ai", esse é o público que lhe resta. Reclama, xinga, aparece. Enquanto isso, na verdade, prepara projeto para uma autoregulação das faculdades e universidades privadas, que, pelo contrário, tiraria qualquer valor do Enade.

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