Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Análise: Indicador do Ideb nos ajuda a avançar, mas é difícil de ler

Os resultados divulgados nesta semana mostram a importância de indicadores de desempenho

Ernesto Martins Faria e Vinicius de Moraes*, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 06h11

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2019, divulgado na terça-feira, 15, mostrou que, após anos de estagnação, o ensino médio avançou: subiu de 3,8 para 4,2 (ainda distante da meta de 5). Nos anos iniciais e finais do ensino fundamental, o crescimento foi mais lento: na etapa inicial, passou de 5,8 para 5,9 e, na final, de 4,7 para 4,9. Para entender o que esses números significam na prática, precisamos lembrar que o Ideb é calculado com dados sobre aprovação escolar e as médias dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que está ancorado nos resultados de 1997.

A partir do desempenho dos estudantes no Saeb naquele ano, foi criada a escala Saeb. Com isso, o conhecimento dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática passou a ser estimado em pontos, em uma mesma escala, para possibilitar a comparação entre eles e também entre edições da avaliação. Já em 2007, se cria o Ideb que vincula o seu componente de aprendizagem ao resultado de 1997.

Como é isso? Simplificando, um índice de aprendizagem equivalente ao de 1997 seria igual a 5 e um índice muito acima (três desvios-padrão acima, em termos técnicos) seria igual a 10. Isso gera uma dificuldade de leitura, pois a qualidade dos anos iniciais e finais do ensino fundamental e do ensino médio era diferente em 1997, fazendo com que hoje um mesmo valor de Ideb tenha significados diferentes para cada etapa. O Idesp, indicador de São Paulo, por exemplo, seguiu outro caminho, sendo ancorado por níveis de proficiência: avançado, proficiente, básico e abaixo do básico.

Então, chegamos ao resultado do ensino médio. Entendendo que 5 é o equivalente ao resultado de 1997, percebemos que há muita margem para avançar. Claro que não podemos desconsiderar que, em 1997, a taxa de atendimento do ensino médio era de aproximadamente 68% dos estudantes, muito abaixo da atual, fazendo com que os alunos mais vulneráveis não fossem contabilizados no indicador. 

Mas, de qualquer forma, não podemos perder que o avanço é ainda muito pequeno. Apenas a rede estadual do Espírito Santo tem uma nota de aprendizagem acima de 5. Outro fator é que a própria existência do Ideb por escola para o ensino médio deve ter favorecido esse avanço. Até 2015, o Ideb do ensino médio era feito por amostragem, já em 2017, passou a ser censitário, o que, muito provavelmente, fez com que as escolas se preocupassem mais com a avaliação. 

Os resultados divulgados nesta semana mostram a importância de indicadores de desempenho. No entanto, as características do Ideb não tornam fácil sua leitura, e fica claro que, ao passo que progredimos, ainda há muito por avançar.

*Ernesto Martins Faria é diretor-fundador do Iede; Vinicius de Moraes é pesquisador do Iede

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.