Análise: Enem deve informar, não confundir

Nova forma de divulgação do exame é um avanço, mas não soluciona problemas

Paula Louzano, É DOUTORA EM POLÍTICA EDUCACIONAL PELA UNIVERSIDADE HARVARD E PESQUISADORA DA USP

23 Dezembro 2014 | 01h08

Neste ano, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) dificultou o simples ranqueamento das escolas ao divulgar as notas do Enem separadas para cada disciplina, ao classificar as escolas por nível socioeconômico e tamanho, e ao incluir a distribuição das notas e não somente a média geral, além de informar a qualificação do corpo docente. Essa forma de divulgação do resultado é sem dúvida um avanço com respeito a anos anteriores, mas ela ainda não soluciona dois problemas centrais.

O primeiro deles diz respeito ao fato de que, ao assumir que o Enem reflete de alguma forma a qualidade da educação de um estabelecimento de ensino, o Estado deva garantir a melhor medida possível desse fenômeno. Permitir que uma escola tenha a sua nota média divulgada quando apenas metade de seus alunos realizaram a avaliação abre espaço para possíveis manipulações desse resultado.

Em segundo lugar, aceitar que escolas se desdobrem em “filiais” no mesmo endereço, separando alunos apenas para efeitos do Enem é um contra senso educacional, além de confundir a sociedade. O Objetivo Integrado nada mais é que os 44 melhores alunos do tradicional Colégio Objetivo da Avenida Paulista separados dos demais 250 alunos apenas no período da tarde, já que pela manhã eles têm as mesmas aulas. O impacto desse “reforço” vespertino garante ao Objetivo Integrado o primeiro lugar no Enem, enquanto os seus colegas do matutino amargam o posto 5.537º. Permitir esse tipo de manobra é mandar um sinal errado à sociedade, às famílias que cada vez mais utilizam o Enem como referência de suas escolhas e aos próprios alunos sobre o sentido e os fins da educação.

Depois do avanço na divulgação dos resultados de 2013, principalmente ao incluir o nível socioeconômico dos alunos, o Inep deveria centrar seus esforços em fazer do exame um bom indicador de qualidade educacional. Isso significa garantir que seus resultados reflitam minimamente os esforços educacionais das escolas e não artimanhas para subir no ranking. Afinal de contas, o Estado arca com mais de R$ 300 dos R$ 450 milhões que custa o Enem por ano. Não é justo que este instrumento confunda a sociedade mais do que a informe.

*Paula Louzano é pedagoga, doutora em Política Educacional pela Universidade Harvard e pesquisadora da USP


 

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