Análise: É fundamental manter a prioridade à missão da pesquisa

'Manter e aprofundar o papel da USP como a grande instituição de pesquisa do País é o nosso desafio estratégico neste momento em que se comemoram 80 anos de sua existência'

Celso Lafer,

24 Janeiro 2014 | 03h00

O Estado de São Paulo sempre atribuiu importância ao conhecimento como variável crítica do seu desenvolvimento. O Instituto Agronômico de Campinas, fundado em 1887, foi pioneiro no País como qualificado centro de pesquisa.

Até a criação da USP, São Paulo dispunha de boas instituições de ensino superior, como a Politécnica, a Luiz de Queiroz (de Agricultura), as Faculdades de Medicina, Direito, Farmácia e Odontologia. Quando a USP surgiu, em 1934, em grande parte inspirada pela visão de Julio de Mesquita Filho, com o respaldo do governador Armando de Salles Oliveira, o conceito de seus idealizadores era de que o Estado precisava de uma instituição pública para elevar o patamar da geração e transmissão de conhecimento, com um caráter interdisciplinar e integrador. O lema da USP, Scientia Vinces, traduz, desde os seus primórdios, a "ideia a realizar" do seu projeto.

Nestes 80 anos, a validade do lema viu-se plenamente confirmada pela importância do pilar da pesquisa nas atividades da instituição, que levou em conta a velocidade com a qual, no mundo contemporâneo, se amplia e se aprofunda o repertório em todas as áreas do conhecimento. Não pode haver ensino de qualidade nem apropriada extensão de serviços à comunidade, as outras duas missões da USP, se essas atividades não forem continuamente renovadas e vivificadas pelo contínuo aprofundamento da pesquisa.

Diversos rankings internacionais comprovam o prestígio da USP. Pode-se discutir critérios e métodos, mas essas classificações oferecem indícios do nível de qualidade das instituições que listam. Segundo a avaliação de professores, pesquisadores, cientistas e intelectuais de 144 países ouvidos pela revista Times Higher Education, a USP figura entre as 70 universidades de mais reputação, acima de Heidelberg, Paris-Sorbonne, Brown e outras.

Esse bom conceito decorre de vários fatores: a USP é a universidade que mais titula doutores no mundo (2.439 em 2012), ocupa o terceiro lugar em verba anual para pesquisa (entre 682 instituições consultadas) e é a quinta em número de artigos científicos publicados (7.599 em 2012) entre 1.181 universidades, de acordo com o Centro de Universidades de Classe Mundial da Universidade Jiao Tong.

De toda a produção científica brasileira, a USP responde por 23% e o Estado de São Paulo por mais de 50%; as duas outras grandes universidades públicas estaduais, Unicamp e Unesp, tiveram a USP como seu ponto de referência quando foram criadas. Tal desempenho do Estado só é viável pelos recursos que ele destina às três universidades e à Fapesp (que também contribui significativamente para este resultado) e pela garantia de autonomia para sua gestão que lhes assegura.

Manter e aprofundar o papel da USP como a grande instituição de pesquisa do País é o nosso desafio estratégico neste momento em que se comemoram 80 anos de sua existência. É a condição da possibilidade de ampliar, pelo conhecimento, o poder de controle da sociedade brasileira sobre o seu destino num mundo interdependente que opera em rede. Por isso, para a apropriada preservação do ativo que a identidade da USP possui, é fundamental que a sua governança atribua permanente e determinante prioridade à missão da pesquisa, porque dela depende a qualidade tanto do ensino quanto da prestação de serviços à comunidade.

PROFESSOR EMÉRITO DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP, PRESIDENTE DA FAPESP

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