Fabiana Carval/Divulgação
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Análise: Desafio no Brasil é universalizar qualidade na educação

'Experiências bem sucedidas mostram que é possível ter impacto no aprendizado do aluno, mesmo em intervenções que afetam toda a rede de ensino'

Sérgio Firpo, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2016 | 03h00

Os governos estaduais e municipais são os grandes provedores de educação básica e foram, nas últimas décadas e sob a articulação do governo federal, capazes de universalizar o acesso à educação, sobretudo na sua etapa fundamental. A despeito dos avanços no acesso, a qualidade da educação, medida das mais diferentes formas, não acompanhou essa evolução.

Diante desse quadro, o terceiro setor tem-se tornado parceiro de redes ou de escolas públicas de ensino em todo o Brasil, tipicamente 'adotando' algumas escolas públicas. Nessas escolas, introduzem-se práticas gerenciais e pedagógicas modernas e, muitas vezes, inovações tecnológicas voltadas ao ensino. Algumas dessas escolas tornam-se integrais, permitindo que as crianças ali matriculadas tenham profunda identificação com o ambiente escolar. Essas intervenções produzem, em geral, aumento permanente no aprendizado dos alunos, impactando positivamente a progressão escolar e o acesso qualificado ao mercado de trabalho futuro.

O grande desafio dessas iniciativas é a 'escalabilidade'. Em que medida consegue-se transformar toda uma rede pública de ensino de uma unidade da federação e fazer com que ela tenha o mesmo padrão de qualidade das escolas que foram adotadas pela parceira? Temos aprendido como aumentar a qualidade da educação em algumas escolas, mas como as experiências mais exitosas são as mais caras, fica o desafio: como universalizar, não mais o acesso simples à educação, mas o acesso à qualidade na educação? Algumas experiências bem sucedidas, sobretudo com programas de gestão escolar, mostram que é possível ter impacto no aprendizado do aluno, mesmo em intervenções que afetam toda a rede de ensino. Mas ainda estamos longe da universalização de outras experiências bem sucedidas.

A universalização das melhores iniciativas poderia ser mais facilmente alcançável se fosse possível identificar exatamente como essas intervenções geram impacto sobre aprendizado. Cada um desses programas preconizados pelos parceiros das escolas públicas tipicamente constitui-se de um conjunto de diversas ações embaladas com um só nome. A avaliação de cada um desses conjuntos de ações enfrenta, portanto, a dificuldade de separar o que é crucial para o aprendizado e é relativamente barato, do que é pouco efetivo e relativamente caro.

Mas o aspecto crucial dessas iniciativas não está em suas limitações, mas na sua origem. Elas partem do entendimento de que as crianças que frequentam as escolas públicas são as nossas crianças, não as dos outros. É essa a universalização mais importante. É esse o nosso maior desafio, como sociedade. A difusão desse entendimento permitirá fazer com que intervenções de sucesso em redes e escolas públicas sejam mais facilmente replicadas e ampliadas, alcançando, enfim, todas as nossas crianças e jovens.

SÉRGIO FIRPO É ECONOMISTA E TITULAR DA CÁTEDRA INSTITUTO UNIBANCO DO INSPER

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