Análise: Com salários baixos, professores sofrem efeitos da crise

Para Daniel Cara, violência contra docentes reflete incompreensão da PM e do governo em relação às mobilizações democráticas

O Estado de S. Paulo

30 Abril 2015 | 03h00

Desde as manifestações de junho de 2013, o Brasil assiste a uma retomada das ruas, especialmente diante do contexto de recrudescimento político e de crise econômica. A categoria dos professores é uma das mais significativas numericamente, o que favorece sua capacidade de mobilização. Também amplia esse poder mobilizatório o fato de os professores terem uma formação melhor, se comparados a outros servidores públicos.

A inaceitável violência contra os professores no Paraná reflete a incompreensão da Polícia Militar e do governo daquele Estado em relação às mobilizações democráticas. E o mesmo ocorre em vários outros protestos pelo País. O despreparo policial nessas situações é bem mais raro em democracias mais desenvolvidas.

É necessário mudar a visão nacional sobre o bom gestor público. O governante democraticamente eleito tem a obrigação de negociar, ainda que não concorde com as reivindicações dos grevistas. E não foi isso o que fez o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB).

Com o cenário de ajuste fiscal e de crise arrecadatória, a tendência ao longo do ano é de uma escalada de greves em todas as categorias, incluindo a educação, tanto nas redes estaduais quanto nas municipais. Além do Paraná e de São Paulo, hoje temos greves em vários outros Estados e em centenas de municípios.

Nas redes de ensino, a negociação costuma ser mais difícil por causa do grande número de profissionais envolvidos. Para os professores, a inflação alta prejudica o ganho real nos salários, já historicamente defasados em relação a outras carreiras. Por outro lado, os justos reajustes provocam forte impacto na folha de pagamento.

E a recusa dos governantes em negociar não colabora em nada. Mais grave é a negação do estado de greve, como acontece em São Paulo. Falta aos nossos gestores, de maneira geral, serem mais transparentes sobre a situação do orçamento público e da gestão. Isso é relevante tanto para a sociedade em seu conjunto como para os profissionais da educação.

DANIEL CARA É CIENTISTA POLÍTICO E COORDENADOR DA CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO

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