Análise: As desigualdades que não conseguimos enfrentar

Dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) mostram abismo de desempenho das crianças de 3º ano do ensino fundamental entre as regiões do País

Ernesto Faria e Tadeu da Ponte*, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2017 | 16h03

Os dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) são mais um indicativo da dificuldade que temos ao enfrentar as desigualdades regionais. Já ao final do 3º ano do ensino fundamental, a diferença entre os resultados dos estados do país mostra-se muito grande, sendo, na maioria dos casos, reflexo de desigualdades socioeconômicas.

Estudos nacionais e internacionais mostram que questões socioeconômicas refletem em desigualdades de aprendizagem muito cedo, como na amplitude do vocabulário, no desenvolvimento motor e socioemocional e na aquisição de habilidades e conhecimentos. Essa desigualdade precisa ser combatida desde muito cedo, pois há muitas evidências de que ela só se amplia com o passar dos anos letivos, e revertê-la no ensino médio é quase impossível.

Tanto em Leitura como em Matemática, mais de 50% das crianças do país demonstram ter um nível insuficiente de aprendizado para sua série, de acordo com a escala da avaliação. Pior, se olharmos apenas para os resultados do Norte e do Nordeste, 7 a cada 10 crianças não dominam as habilidades esperadas. Aliás, a desigualdade brutal em matemática tão cedo chama a atenção, já que as questões familiares/econômicas, geralmente, têm menor influência se comparadas ao impacto que têm em leitura.

Queremos aqui fazer duas sugestões para o combate dessas desigualdades: a primeira é que busquemos oferecer mais recursos pedagógicos para as escolas que atendem alunos de baixa renda. Havendo limitação de recursos, que se priorize a educação infantil e os primeiros anos do ensino fundamental. Já a segunda é que de fato trabalhemos para uma implementação efetiva da Base Nacional Comum, e que a partir dela se tenha altas expectativas e suporte ao trabalho pedagógico dos educadores. Precisamos de escolas em que um aluno de baixa renda possa se desenvolver tanto quanto os alunos mais favorecidos economicamente.

*Ernesto Faria, diretor do Interdisciplinariedade e Evidências no Debate Educacional (IEDE), e Tadeu da Ponte, pesquisador do Insper.

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