Análise: A contribuição singular das Ciências Sociais

'A crença originária nas possibilidades de 'aplicar' o conhecimento científico na formulação de políticas públicas se realizou, de algum modo, e ajudou a mudar o País'

José Álvaro Moisés,

24 Janeiro 2014 | 03h00

As Ciências Sociais da USP nasceram entre os anos 30 e 40 do século passado sob a extraordinária influência da missão francesa. Roger Bastide, Claude Lévi-Strauss e outros ajudaram a estabelecer os padrões de rigor científico que marcariam a área nas décadas seguintes. Mas a tarefa realmente inovadora foi a da chamada "escola paulista de sociologia" sob a liderança de Florestan Fernandes e de seus assistentes diretos, como Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni e Maria Sylvia de Carvalho Franco. Ao voltar-se para a compreensão do papel dos mais marginalizados, o grupo rompeu com o ensaísmo sobre a formação da sociedade brasileira marcado pelas dificuldades de emergência da identidade nacional.

Os estudos pioneiros de Florestan sobre a escravidão, seguidos pelas análises dos empresários industriais, trabalhadores urbanos e rurais e a emergência do populismo de Leôncio Martins Rodrigues, Francisco Weffort e José de Souza Martins, entre outros, ofereceram um olhar inovador das classes sociais nas suas relações com o Estado, abrindo uma nova forma de a própria sociedade brasileira se compreender.

O sentido dessa missão acadêmica foi definido, como lembrou Fernando Henrique, pelo desejo de "transpor as dificuldades que impediam o surgimento de formas e graus de desenvolvimento econômico, social e cultural que permitissem superar a pobreza e a miséria, e nos dessem um destino de grandeza". Isso explica que as análises tenham enveredado pela seara da política, com os estudos do populismo, dos movimentos sociais e dos partidos políticos. Em anos recentes, contudo, "a paixão por entender a realidade" fez o diagnóstico dos desafios anteriores ser associado com o insuficiente desenvolvimento democrático da sociedade brasileira. O foco agora é a qualidade da democracia e sua capacidade de articular liberdade com igualdade.

A criação da USP foi vista algumas vezes como resposta das elites paulistas à sua derrota em 30 e 32. A perspectiva envolve exageros, mas é impossível avaliar a contribuição das Ciências Sociais da USP sem ter em conta que a experiência formou o contexto em que algumas das principais lideranças ocuparam a presidência da República, cadeiras no parlamento e importantes ministérios. Ou seja, a crença originária nas possibilidades de "aplicar" o conhecimento científico na formulação de políticas públicas se realizou, de algum modo, e ajudou a mudar o País.

PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA E COORDENADOR DO NÚCLEO DE PESQUISA DE POLÍTICAS PÚBLICAS DA USP; AUTOR DE OS IMPACTOS DA DESCONFIANÇA POLÍTICA NA QUALIDADE DA DEMOCRACIA (2013)

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