Analfabetos no MEC surpreendem ministro

Não apenas um, mas 15 funcionários do Ministério da Educação são analfabetos. "Estou surpreso", afirmou o ministro Cristovam Buarque, ao receber o resultado do levantamento preliminar realizado por sua assessoria. Quando tomou posse, Cristovam comentou que se houvesse algum analfabeto no prédio, ele mesmo iria ensiná-lo a ler e escrever.O ministro confessa que imaginava um ou dois analfabetos, no máximo. "Se aqui tem 15, na Esplanada devem existir cerca de mil", arriscou. Com tantos candidatos, talvez Cristovam não consiga conciliar a atividade de alfabetização com a agenda de ministro. "Vou cumprir a promessa." Mas faz uma ressalva: "Se não houver outro professor."Um andar acima do gabinete do ministro trabalha Janiel Cabral de Souza, de 53 anos, um dos analfabetos identificados pela assessoria. Está no ministério desde 1978 e diz que tentou estudar, várias vezes, sem sucesso. "O estudo não entra na minha cabeça", resiste Janiel, que aprendeu com a mãe a escrever o próprio nome. As letras saem trêmulas.E, se outra pessoa copia o nome, ele não consegue ler. A sua chefe imediata, Julita de Souza Santana, bem que tentou ensinar-lhe. Julita tinha o 1º grau incompleto quando chegou ao MEC e formou-se professora. Exibe a foto da formatura toda orgulhosa, mas não esconde a decepção de não conseguir ajudar o próprio funcionário, que é encarregado de distribuir materiais de escritório até para o gabinete do ministro."A professora quebra mais a cabeça comigo do que me ensina coisas", teima Janiel que gostou da possibilidade de virar aluno do ministro.O pernambucano Janiel tem menos idade do que a sua conterrânea e faxineira Maria do Rosário Martiniano da Silva tinha quando se alfabetizou em um curso de três meses no Congresso, coordenado pela deputada Esther Grossi (PT- RS).Maria aprendeu a ler e escrever com 57 anos. "Ganhei na loteria", compara a faxineira, que agora está com 59 anos. No dia da posse do novo presidente, ela pediu à deputada que entregasse a Lula uma carta em que desejava que ele assumisse a "presidência com alegria, tenha sabedoria para governar e trabalhe pela pobreza".Depois do curso, passou a pegar ônibus, fazer compras e a ter crédito na praça. "Antes, eu sentia vergonha."A deputada, que integrará a equipe do Fome Zero e iniciou em Quixadá (CE) treinamento de 500 alfabetizadores, garante ser viável ensinar a ler e escrever em apenas três meses, mesmo no caso de idosos. "A primeira tarefa é desfazer o estigma de que a pessoa não é inteligente", ensina a deputada, que recomenda levantar a auto-estima do candidato na entrevista prévia antes do início das aulas.

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