Alunos protestam contra possível venda da Fecap

Manifestação fechou Av. Liberdade; centro universitário negocia com grupo educacional mineiro

Carlos Lordelo, do Estadão.edu, e Davi Lira, de O Estado de S. Paulo,

10 Outubro 2012 | 18h42

SÃO PAULO - Alunos do Centro Universitário Fecap fizeram um ato na noite desta quarta-feira, 10, em repúdio à possibilidade de venda da instituição para o grupo educacional Ânima. Os estudantes deixaram as salas de aula e fecharam a Avenida Liberdade, no centro, por volta das 19h. Eles vestiram roupas verdes, cor que representa a Fecap, e pretas.

 

Com 110 anos de história, a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado abriu os primeiros cursos de Economia (1934) e Contabilidade (1939) do País. Atualmente a instituição tem cerca de 4,7 mil alunos e oferece sete graduações, com mensalidades entre R$ 663 (Secretariado Executivo Trilíngue) e R$ 1.190 (Administração, Economia e Relações Internacionais).

 

Alunos e professores temem a venda para a Ânima porque o grupo, baseado em Minas, gerencia três instituições de ensino com desempenho pior que o da Fecap em avaliações do Ministério da Educação. São eles o Centro Universitário UNA e o de Belo Horizonte (Uni-BH), ambos de Minas, e o Monte Serrat (Unimonte), de Santos (SP).

 

"Estamos apreensivos em relação à qualidade acadêmica que podemos ter daqui para frente se o negócio se concretizar", diz um professor que pediu para não ser identificado. "A Fecap tem um projeto educacional que nos deixa orgulhosos."

 

A comunidade acadêmica ficou sabendo da negociação na semana passada. O presidente do Conselho Curador da fundação, Horácio Berlinck Neto, informou aos integrantes do Conselho Universitário que as conversas com a Ânima estavam avançadas. O grupo mineiro gerenciaria a marca e os cursos de graduação e pós da Fecap, mas o colégio continuaria nas mãos dos atuais administradores.

 

 

'Assédio'

 

Segundo Luiz Guilherme Brom, diretor superintendente da Fecap, nenhuma decisão foi tomada. "A Fecap está sendo assediada por investidores, como já aconteceu em outros momentos", afirma. Sobre o protesto, Brom diz que os alunos têm liberdade para se manifestarem.

 

De acordo com a Assessoria de Imprensa da Fecap, Berlinck Neto está viajando e não pode dar entrevista. O grupo Ânima informou, por meio de sua assessoria, que "não vai se posicionar enquanto não houve nada concreto" (leia mais abaixo).

 

Para o estudante de Relações Públicas Gabriel Bertan, há riscos de demissão de professores e redução da mensalidade, o que, segundo ele, resultaria na queda da qualidade da fundação. "Foi o que aconteceu em Minas com as instituições compradas pelo grupo Ânima."

 

Levantamento do Sindicato dos Professores de Minas (Sinpro) diz que, entre 2009 e 2011, o Ânima demitiu 399 docentes da UNA e do Uni-BH. A maior parte dos dispensados tinha mestrado ou doutorado. "O grupo tem uma política expansionista, comercial, que não é a mesma da Fecap", defende o estudante de Economia Bruno Ferreira Santos.

 

Mobilização

 

Ex-aluno do colégio e dos cursos de Administração e Economia da Fecap, Frederico Lanzoni não vê motivos para a negociação. "A fundação não tem problemas financeiros nem de qualidade. Estamos colocando 110 anos de tradição em risco", afirma.

 

Os estudantes da Fecap estão se mobilizando pelo Facebook, na página Para sempre Fecap, que tinha 1.466 seguidores até as 19h50 desta quarta. Eles prometem fazer um abaixo-assinado pedindo a continuidade da instituição nas mãos do Conselho Curador e apresentar o documento ao Ministério Público Estadual, para pressionar a Fecap a desistir da negociação.

 

Grupo Ânima

 

Em nota enviada à reportagem às 22h30 desta quarta, o Ânima confirma o número de docentes que deixaram a UNA e o Uni-BH, mas diz que "não foram demissões forçadas". "Trata-se de um plano de demissão voluntária, validado pelo Ministério do Trabalho, criado na transição de gestão do Uni-BH, que abrangeu quase a totalidade dessas saídas", ressalta o texto. "No mesmo período, foram contratados mais de 600 professores nos centro universitários UNA e Uni-BH."

 

De acordo com a Assessoria de Imprensa do grupo educacional, as instituições mantidas pelo Ânima na capital mineira "são os melhores da cidade, pelos critérios do MEC, sendo a UNA a melhor do Estado de Minas". "Todas têm obtido resultados acadêmicos crescentes nos últimos anos. O alto porcentual de mestres e doutores da instituição é outro dos indicadores do zelo pela qualidade."

 

O Ânima afirma que o porcentual de mestres e doutores na UNA e no Uni-BH é superior ao registrado na Fecap. Diz ainda que de 2009 a 2011 o grupo registrou "crescimento de 25%". "Somos um grupo preocupado com a boa gestão", diz a nota.

 

Sobre a afirmação de alunos e professores da Fecap de que haverá queda na qualidade do ensino, o Ânima diz que as instituições que administra "têm obtido resultados acadêmicos crescentes nos últimos anos".

 

O Índice Geral de Cursos (IGC) da UNA, do Uni-BH e do Unimonte em 2010 foi 3. O da Fecap foi 4. O instrumento é construído pelo MEC e sintetiza a qualidade de todos os cursos de graduação, mestrado e doutorado da mesma instituição de ensino.

 

* Atualizada às 23h35

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