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Alunos pobres enfrentam dificuldades para manter estudos do vestibular na quarentena

Com poucos recursos tecnológicos, sem espaço de estudo em casa e com risco de perder o emprego, estudantes de baixa renda relatam o abismo social que existe no ensino a distância em cursinhos de SP

Caio Nascimento, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 17h01

Embora o ministro da Educação, Abraham Weintraub, diga que o Enem é uma “competição que ficou mais difícil para todo mundo” devido ao coronavírus, estudantes pobres saem em maior desvantagem nessa ‘disputa’ durante a pandemia. Apesar da desigualdade nos vestibulares sempre ter existido, agora a situação se complica ainda mais com as inseguranças que o País enfrenta por causa da covid-19.  

Gabriel Alves, de 21 anos, é um exemplo disso. Ele mora numa casa simples de quarto e cozinha na Vila Inglesa, periferia de São Paulo, e sonha em entrar no curso de Medicina da USP – um dos mais concorridos do Brasil. Sem computador para assistir às aulas e sem um espaço estruturado para estudar na quarentena, o jovem teme não passar na faculdade este ano caso perca o emprego como atendente de uma loja, já que não teria condições de bancar os estudos caso ficasse sem salário.

Ele ganha um salário mínimo para pagar o cursinho e ajudar a mãe desempregada, o que o faz sentir angústia com o futuro. “A falta de um notebook para acompanhar os professores e não saber se vou ter meu emprego amanhã são medos que atormentam a minha mente. Meu celular é antigo e trava na maioria das vezes [quando abro as videoaulas]”, diz. “Divido minha atenção entre os estudos e pensamentos sobre como administrar a renda para que eu não sofra tanto com o que pode acontecer daqui para frente.”

A preocupação de Gabriel acompanha o medo de muitos brasileiros com a redução de salário ou o risco de demissão em decorrência da queda da atividade econômica. Além disso, ele acredita que a baixa qualidade do seu ensino médio não ajuda. Como nunca pôde pagar um colégio particular, estudou a vida toda na rede pública e se formou na escola estadual Professor Luiz Simione Sobrinho, na zona sul da capital. Segundo dados do Censo Escolar, a unidade é precária: não tem computador suficiente para todos e alcançou nota média de 500 pontos no Enem 2018 – resultado insuficiente para passar na maioria das universidades públicas.

Já Mariana Albuquerque, de 17 anos, também sonha em estudar Medicina na USP, mas, diferente do concorrente, não enxerga a pandemia como um empecilho para o seu futuro. Oriunda de uma família classe média alta, ela estudou no colégio Etapa, com mensalidade de R$ 2,5 mil, e não enxerga grandes dificuldades com a quarentena. Como não precisa trabalhar, ela mantém a mesma rotina de antes do coronavírus, só que em casa: acorda às 7h, faz exercícios físicos, assiste às aulas do cursinho em seu computador até a hora do almoço e depois segue estudando até as 20h.

“Seria impensável trabalhar hoje, na fase pré-vestibular, ainda mais porque quero Medicina. Por um lado, [a quarentena] piorou meus estudos, porque não estou conseguindo aproveitar as aulas de reforço para a segunda fase [da Fuvest] tão bem quanto antes. Mas por outro melhorou, porque posso dormir mais e não tenho o desgaste de me locomover [até o cursinho]”, explica. 

Otávio Nitolo, de 18 anos, é outro aluno do Etapa que estudou em colégios de elite com mensalidades entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil. Ele pretende estudar Astronomia na USP e reconhece o privilégio que tem: “A base que tive me ajudou. Sem cursinho, consegui passar em algumas universidades particulares e federais.”

A corda pode estourar para o mais pobre

O coordenador do Cursinho da Poli, Gilberto Alvarez, explica que o abismo social entre Gabriel, Mariana e Otávio demonstra que se as notas de corte caírem em virtude da pandemia, o resultado dos alunos da rede estadual será ainda pior. “Alunos menos privilegiados normalmente não têm estrutura em casa para ficar em pé de igualdade com os do ensino particular, então as provas poderão ser ainda mais desiguais”, afirma. “Quem entra pelas cotas nas carreiras mais concorridas geralmente é a elite das escolas públicas, como as Etecs e os Institutos Federais”, completa. 

Na capital paulista essa desigualdade entre os cotistas é evidente. Isabella Ide de 17 anos, estuda na Escola Técnica Estadual de São Paulo (Etesp) – melhor escola pública da cidade e sexta melhor do Brasil –, mora na Aclimação, perto da Avenida Paulista, e estuda para entrar no curso de Engenharia de Produção da USP. Fazendo de cursinho no Etapa e de quarentena em casa, ela diz que mantém o ritmo de estudo usando um notebook para as aulas à distância.

Já Kelly Ferreira, de 22 anos, vive a apenas 17 km de distância de Isabella, na Freguesia do Ó, mas o precipício educacional entre as duas é enorme. A jovem se formou numa escola precária do bairro, sonha em estudar Biomedicina na USP e se preocupou quando as aulas presenciais do seu cursinho popular foram suspensas, já que não tem condições de comprar um computador para assistir às videoaulas.

Como sua renda familiar é de cerca de R$ 670 reais para quatro pessoas, após pagamento do aluguel e do tratamento de sua epilepsia mioclônica, ela vive com o dinheiro contado, sem poder se dar ao direito de melhorar seu acesso à tecnologia. Além disso, a doença a faz ter problemas de concentração, tornando ainda mais complicado acompanhar o pré-vestibular pelo celular. “Estudar em casa para mim sempre foi muito difícil por conta da epilepsia. Minha leitura e concentração se comprometem quando tomo os medicamentos”, conta. 

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O ideal para Kelly seria arranjar um emprego para incrementar a renda familiar e bancar seus estudos, mas o transtorno não ajuda. “É algo que me impede de trabalhar como balconista, vendedora, telemarketing… vagas que estão mais ao meu alcance”, explica. Recentemente, ela conseguiu um notebook emprestado e está se adaptando à nova rotina. 

Justiça reage contra a desigualdade

Levando em conta essas disparidades, a juíza Marisa Claudia Gonçalves Cucio, da 12ª Vara Cível Federal de São Paulo, atendeu a um pedido da Defensoria Pública da União (DPU) e ordenou na sexta-feira, 17, que o Ministério da Educação (MEC) mude o calendário do Exame Nacional do Ensino Médio em razão das restrições impostas pela pandemia do coronavírus

Na avaliação da magistrada, alunos da rede pública não estão assistindo às aulas com o conteúdo cobrado no Enem, “ao contrário de grande parte dos alunos da rede privada, que possuem acesso ao ensino a distância e diversas outras ferramentas eletrônicas”. O MEC adiou as datas do Enem digital, que será aplicado pela primeira vez em fase teste a 100 mil pessoas. A edição virtual será realizada em 1º e 8 de novembro, mesma data da prova impressa, cujo calendário não foi alterado. 

Contrariando o Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed), que defende o ajuste do cronograma em benefício aos mais pobres, o ministro Abraham Weintraub alegou pelo Twitter que vai recorrer da decisão da Justiça. Já as universidades públicas e particulares paulistas aguardam o avanço do cenário para definir possíveis mudanças.

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais

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