DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Alunos ocupam até escolas que não serão fechadas em São Paulo

Unidades que não constam de plano de reestruturação de Alckmin foram tomadas por medo de outros reflexos da mudança; alunos têm até cronograma de atividades com "aulas" contra racismo e machismo

Isabela Palhares e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

18 Novembro 2015 | 03h00

Escolas que não serão fechadas nem terão ciclos de ensino encerrados pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB) também foram ocupadas por estudantes e movimentos sociais. Até as 20 horas desta terça-feira, 17, ao menos 34 unidades estaduais haviam sido invadidas. Em 6 delas, o protesto não tem relação direta à reestruturação da rede paulista.

É o caso da Escola Estadual Padre Saboia de Medeiros, na Chácara Santo Antonio, zona sul de São Paulo, ocupada pelos alunos desde segunda-feira. Os estudantes afirmam que o colégio, apesar de não constar da lista da reorganização, deixará gradualmente de receber alunos do ensino médio. No próximo ano, a unidade não receberá alunos para o 1.º ano. A escola atende apenas a esta etapa do ensino, além de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Estudantes ouvidos pela reportagem afirmaram que, mesmo quando os pais tentam matricular o filho na série inicial do ensino médio, o aluno é transferido “automaticamente” para uma escola próxima, a Plínio Negrão, que fica a 3 quilômetros de distância. 

“É a única escola da região que atende ao ensino médio. Estamos aqui há 70 anos, é uma escola tradicional”, disse uma funcionária que estava no portão e pediu para não ser identificada. Ela teme ainda que haja uma “disputa de professores”, que serão transferidos para outros colégios e precisariam dividir as turmas. “Com certeza muitos ficarão sem trabalho.”

Na escola José Lins do Rego, no Jardim Ângela, zona sul da capital, os alunos decidiram ocupar o edifício, mesmo a unidade estando fora da reestruturação da rede. O colégio já atende apenas alunos do ensino médio e continuará com ensino de ciclo único.

“Nós seremos afetados porque fecharam o ensino médio em outras duas escolas da região. Para onde esses alunos vão? Para cá, onde já temos 40 alunos por sala. Ou seja, vamos ter salas ainda mais lotadas, e o ensino ficará pior”, disse o aluno do 2.º ano do ensino médio André Souza da Silva, de 18 anos. A escola está ocupada desde sábado.

Apesar de não constar da lista de 93 unidades que serão fechadas, a escola Martin Egídio Damy, na Brasilândia, zona norte de São Paulo, não terá novas turmas no ensino médio noturno no próximo ano. “Os alunos foram informados de que não terá mais o noturno. Só haverá opção do ensino médio de manhã. Vai prejudicar muita gente que trabalha e quer estudar”, disse Marina de Oliveira Cintra, de 20 anos.

Ocupação. A rotina nas ocupações é de atividades constantes. Na Saboia de Medeiros, os estudantes passaram a fazer competições esportivas na quadra, jogar tênis de mesa, realizar sessões noturnas de cinema, jogar videogame e fazer aulas abertas. Uma “agenda cultural” da ocupação afixada na parede tem atividades programas até sexta-feira. Estão previstas, por exemplo, aulas sobre a Síria, racismo e machismo na escola, entre outros. Os cursos seriam dados por professores de outros colégios e por membros de movimentos sociais. 

Os próprios alunos que tomaram a escola são os responsáveis por fazer a limpeza das dependências do colégio e da cozinha – a entrada de funcionários é controlada por eles. A comida usada tem sido a da cantina da unidade, que havia sido abastecida no mesmo dia da ocupação. Já as salas de aula são usadas como dormitórios dos estudantes, separados em masculino e feminino.

“Nós queremos não só que a escola fique aberta, como também queremos mudá-la. O que temos feito aqui durante a ocupação é o modelo de escola que gostaríamos de ter. Falta motivação para estudar”, disse a aluna Beatriz Mosken, de 18 anos.

Em nota, a Secretaria Estadual da Educação informou que reconhece o direito à livre manifestação, mas “não pactua com movimentos político-partidários que cerceiam o direito dos alunos de assistirem às aulas sem nem sequer conhecer o processo de reorganização”. Afirmou ainda que a reposição das aulas perdidas durante as ocupações começará após o encerramento do calendário oficial, na semana do Natal.

Reintegração de Posse. A audiência de conciliação entre os estudantes que ocupam a Escola Estadual Diadema, a primeira a ser ocupada na segunda-feira passada, terminou sem acordo com o governo. Os alunos têm até as 14 horas de hoje para deixar o prédio voluntariamente, caso contrário a Polícia Militar poderá cumprir a reintegração de posse do edifício.

Nesta terça, o secretário Herman Voorwald também informou que vai pedir a reintegração de todas as escolas que forem ocupadas (mais informações nesta página). O governo recorreu da decisão da Justiça que impediu a reintegração da escola Fernão Dias Paes, em Pinheiros. A escola foi a segunda a ser ocupada e ganhou destaque depois de os alunos ficarem quatro dias cercados por cerca de cem PMs.

Uma nova audiência de conciliação para a desocupação das escolas na capital foi marcada para amanhã. O desembargador Sérgio Coimbra Schmidt, da 7.ª Câmara de Direito Público, disse, em sua decisão, que “a questão assumiu contornos graves, existindo uma expressiva multiplicidade de interesses em jogo, dentre os quais de crianças e adolescentes”.

Interior. Em Campinas, cerca de cem estudantes ocuparam a escola Carlos Gomes, uma das mais tradicionais da cidade. Os alunos se opõe à desativação do ensino médio no próximo ano e, em protesto, tomaram a unidade e controlam os acessos do prédio. Em Sorocaba, cerca de 300 estudantes de quatro escolas estaduais fizeram um protesto que interditou a Avenida Itavuvu, principal acesso à zona norte do município.

 

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