Alunos e professores da USP contestam 'college' para cotistas

Evento para discutir inclusão social foi organizado pelo Conselho Universitário na tarde desta 3ª

Ocimara Balmant, de O Estado de S. Paulo,

04 Dezembro 2012 | 20h56

Pouco mais de 30 pessoas – entre estudantes, professores e lideranças sociais – participaram de um seminário promovido pelo Conselho Universitário da USP para discutir a inclusão social por meio de cotas, principalmente raciais. O reitor João Grandino Rodas não compareceu ao evento, realizado na tarde desta terça-feira, 4, no auditório da Faculdade de Medicina Veterinária, no câmpus do Butantã, zona oeste da capital.

 

A discussão teve como ponto central o programa de cotas a ser implementado pelas três universidades paulistas: USP, Unesp e Unicamp. Apesar de ainda não ter sido divulgado oficialmente pelo governador Geraldo Alckmin, os detalhes do projeto foram revelados pelo reitor da Unesp, José Durigan, em entrevista ao Estado, na semana passada. Nesta tarde, Alckmin apresentou a proposta a ativistas pró-cotas em audiência no Palácio dos Bandeirantes.

 

Discurso após discurso, a maior parte dos que ocupou o microfone foi enfática em recusar a proposta que prevê que estudantes das escolas públicas frequentem por dois anos um curso similar ao “college” americano. Ao final desse tempo, o aluno receberia um diploma que equivale a formação superior e só depois se matricularia em uma das três universidades.

 

“Isso cria um degrau a mais no acesso e vai acabar desestimulando o negro e o pobre a continuar estudando”, disse Maria Fernanda Silva Pinto, aluna da pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e membro do Conselho Universitário. “Esse diploma será impreciso e provavelmente só será válido nos concursos públicos do Estado.”

 

Além disso, na proposta detalhada por Durigan, a entrada no “college paulista” obedeceria à classificação dos alunos no Enem, critério rejeitado por grande parte dos favoráveis às cotas sociais e raciais.

 

Para Maria Fernanda, a políticas de cotas paulista é uma resposta do PSDB à Lei de Cotas do governo federal que prevê que em quatro anos todas as instituições federais tenham metade de suas vagas reservadas a negros e a estudantes de escolas públicas. “Isso foi resposta à pressão da política federal, sem dúvida.”

 

O professor José Roberto Machado Cunha da Silva, do Instituto de Ciências Biomédicas, disse que as cotas precisam ser vistas como uma discriminção positiva. “Se um filho meu tem problema de fala, eu vou levar ao fonoaudiólogo para que ele aprenda a falar como as outras crianças. Com as cotas é a mesma coisa. Inserimos essa população para que no fim ela tenha a mesma oportunidade.”

 

José Roberto sugere que o programa de cotas tenha duração inicial de dez anos e que, após esse prazo, se faça uma avaliação dos resultados obtidos.

 

Ao fim do evento, com público ainda menor, a frase de uma estudante da Faculdade de Educação parecia sintetizar a discussão do dia. “Será que esse debate vale? Enquanto a gente pensa e se reúne para discutir, o governo anuncia o que bem entende e uma medida externa nos será imposta.”

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