Alunos e professores criticam compra do Hospital Matarazzo pela PUC

Universidade, que comprou área milionária, enfrentou crise financeira em 2005

Paulo Saldaña, Especial para o Estadão.edu

02 Junho 2010 | 15h53

Alunos e professores da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) receberam surpresos e indignados a notícia da compra de área do antigo hospital Matarazzo, na região do Avenida Paulista, pela universidade. A compra ocorre depois de a PUC passar, nos últimos anos, pela maior crise financeira de sua história, que provocou atrasos em pagamentos de salários, a demissão de quase um terço do quadro de professores e funcionários e a intervenção direta da Igreja Católica na gestão da universidade.

 

 

De acordo com representantes de centros acadêmicos e da Associação de Professores da PUC (Apropuc), apesar de a negociação durar pelo menos seis meses, nada foi comentado nas reuniões das instâncias da universidade. Alunos espalharam as notícias publicadas hoje nos jornais pelas paredes do câmpus de Perdizes, região Oeste de São Paulo.

 

 

O complexo de edifícios que abrigou até 1993 o Hospital foi comprado pela PUC e um fundo de investimentos, que não foi divulgado. A negociação foi conduzida pela Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), dona da área desde 1996, com a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP, e o fundo.

 

 

Não há informações sobre o valor da venda. Tomando por base o preço do metro quadrado da região (R$ 3 mil a R$ 4 mil), um terreno com a mesma área estaria avaliado entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões, mas o fato de o local ser tombado pode alterar o valor.

 

 

 

"É bastante obscuro de onde saiu esse dinheiro. Estamos enfrenatando uma crise e agora vem essa compra, com uma estimativa de muito dinheiro", afirmou a aluna do 5º ano de Direito Irene Maestro Guimarães, membro do Centro Acadêmico. "Todas as reivindicações de bolsas, estrutura física e contratação de professores, fundamentais para manter a qualidade no ensino, sempre são barradas, mas a compra não", diz. Irene ressaltou que a problemática maior é que o assunto não foi tratado pela universidade.

 

 

Dayana Biral, 23 anos, estudante do 4º ano do curso de História, concorda. "A Fundação São Paulo, junto com a Reitoria, está tratando de aniquilar qualquer traço democrático existente na PUC", afirma ela. "Passamos por uma profunda crise financeira que estourou em 2005, que acarretou grandes cortes na universidade".

 

 

Crise

A reestruturação começou na gestão da reitora Maura Véras (2004-2008), que assumiu com uma dívida de R$ 56 milhões e um déficit mensal de R$ 3 milhões. A Arquidiocese de São Paulo tomou a frente da gestão, por meio da Fundação São Paulo, e promoveu a demissão de funcionários e professores. As demissões e o redesenho institucional provocaram protestos e críticas das entidades representativas dos professores e funcionários. As mudanças levaram, inclusive, estudantes a ocupar a reitoria da PUC em novembro de 2007. A dívida da PUC chegou a R$ 300 milhões quando o atual reitor, Dirceu de Mello, tomou posse, em 2008.

 

 

A diretora da Apropuc, Maria Beatriz Abramides, afirmou que também não foi comunicada da negociação. "Fomos tomados de surpresa, soubemos pelos jornais", diz ela. Na segunda-feira, a associação fará uma reunião para tratar do assunto.

 

 

"É muito preocupante. Ainda há uma dívida com bancos e com os professores". Segundo ela, ainda não houve acordo sequer para a reposição salarial desde 2005. A associação entrou na justiça no último dia 28 pela reposição e acusa a PUC e a Fundação São Paulo de passar por cima da convenção coletiva e fazer acordos individuais.

 

 

A PUC não quis se manifestar sobre o assunto. De acordo com a assessoria de imprensa, o reitor estava fora do Brasil e seria a única pessoa autorizada a falar sobre o tema.

 

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