Alunos do Rio Branco fazem homenagem a mortos em tragédia no Rio

Estudantes combinaram ato pelo Facebook e apareceram no colégio de camisa preta; especialista defende discussão do crime em sala de aula

Carlos Lordelo, Estadão.edu

08 Abril 2011 | 17h57

Alunos do ensino médio do Colégio Rio Branco em Higienópolis, região central de São Paulo, promoveram na manhã desta sexta-feira, 8, um ato para homenagear as crianças mortas no atentado ocorrido ontem em uma escola carioca. Vestidos de preto, os estudantes fizeram um minuto de silêncio, confeccionaram cartazes de repúdio a violência e cantaram músicas que enfatizam o sentimento de solidariedade.

 

O movimento foi organizado pelos alunos do 3.º ano no Facebook e contou com a participação de colegas das outras séries, representantes da direção e funcionários do colégio. Segundo a orientadora educacional do ensino médio, Leda Soares, os estudantes manifestaram "medo", mas "de forma velada". "Este medo não os paralisou, mas os motivou a demonstrar solidariedade às famílias das crianças", diz a psicóloga.

 

Depois que todos cantaram juntos músicas como Dias Melhores, do Jota Quest, e Epitáfio, do Titãs, os orientadores educacionais do Rio Branco conversaram com os jovens. "Dissemos que todos estamos abalados com o que houve e valorizamos a iniciativa dos alunos", conta Leda. "Não falamos muito, porque o momento não é de palavras, mas de reflexão."

 

Manifestações como a do Colégio Rio Branco devem ser repetidas em outras escolas, defende a professora de psicologia de educação da Faculdade de Educação da USP Silvia Colello. "O que aconteceu no Rio de Janeiro merece destaque não só porque está em relevo na mídia. Da tragédia, podemos extrair aprendizagem de princípios e valores", diz a docente. Para ela, as escolas precisam discutir questões como violência, solidariedade e relações humanas.

 

Neste momento, diz Silvia, é importante para o colégio escutar o aluno e acolher suas angústias. Depois, abrir espaço para reflexão sobre os motivos do crime e, por fim, pensar no que pode ser feito para impedir situações semelhantes. Mas ela alerta: o assunto precisa ser tratado com graus de profundidade diferente, dependendo da faixa etária dos estudantes. "E lembrar sempre que a escola é um espaço de valorização da vida", afirma a professora.

 

O Colégio Batista Brasileiro, em Perdizes, zona oeste, pretende seguir essa orientação. Hoje à tarde, a direção da escola se reuniu para discutir como vai abordar a chacina do Rio com seus alunos do ensino infantil ao médio. Segundo a coordenadora do ensino fundamental, Selma Guedes, o momento é de acalmar as crianças. "Elas estão muito estressadas. Tentamos desviar a atenção para as coisas boas da escola. Mas é claro que o trauma vai ficar."

 

No Magister, em Interlagos, zona sul, o professor de filosofia das turmas do ensino fundamental, Clayton Fernandes, deixou de lado as aulas do 8.º e 9.º anos preparadas para hoje e discutiu a tragédia do Rio com seus alunos. "Eles já chegaram falando disso, porque não esperavam que acontecesse dentro de uma escola e com crianças da idade deles", diz Fernandes. "Acho que estavam ansiosos para desabafar."

 

O professor conta que trabalha o tema violência a partir de estudos de caso, como os recentes registros de agressão a gays na Avenida Paulista e o assassinato do índio Galdino Jesus dos Santos, em Brasília, em 1997. Hoje, Fernandes aproveitou para falar mais uma vez sobre bullying. "Qualquer violência gera reação", destacou.

 

A direção do Vértice, colégio do Campo Belo, zona sul, não desenvolveu atividades especiais para discutir em sala de aula o que aconteceu no Rio. "O tema violência já está na pauta de nossos processos de ensino e aprendizagem", explica o diretor Adilson Garcia. "Mostramos a nossos alunos que estamos aqui para ajudá-los a compreender melhor a tragédia e, principalmente, para protegê-los."

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