Alunos denunciam fraude no Saresp em escola de Osasco

Eles alegaram que funcionários da escola barraram um grupo de até 20 estudantes no portão do colégio em um dos dias da prova

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2015 | 09h30

Atualizada às 12:19

SÃO PAULO - Um grupo de seis alunos da escola estadual Francisca Lisboa Peralta, no bairro Jardim Elvira, em Osasco, denunciou uma suposta prática na unidade que poderia elevar a nota no Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), exame realizado anualmente. Eles alegaram que funcionários da escola barraram um grupo de até 20 estudantes no portão do colégio em um dos dias da prova, tanto no período da manhã quanto da noite, em novembro do ano passado, com o argumento de que haviam “faltado demais” às aulas. A evolução no desempenho dos estudantes na avaliação pode render bônus de até 2,9 salários a todos os funcionários da escola. 

Em nota, a Secretaria Estadual de Educação afirmou que não houve qualquer registro de irregularidades na escola. A pasta ainda destacou que 85% dos estudantes que cursavam a 3ª série do Ensino Médio na unidade fizeram a prova em 2014, porcentual maior do que em 2013, quando 79% dos alunos participaram.

O ex-aluno da escola Jeferson Sousa Freitas, que fez o 3º ano do ensino médio em 2014, disse que foi um dos impedidos. Ele contou que o servidor que estava no portão argumentou que ele e os colegas faltaram demais ao longo do ano. Ao insistirem, segundo Freitas, a diretora foi ao local e  teria dito que quando o estudante tem excesso de faltas, a instituição nem recebe a prova. “Quando eles falavam que não ia entrar, os alunos iam embora”, disse.  Segundo Freitas, o funcionário mudou a posição no dia seguinte e disse aos alunos que “eles (gestores escolares) estavam “com medo” de que os alunos “fizessem bagunça com o professor que foi aplicar a prova”. 

Outro aluno barrado, Arianderson Ferreira Santos, de 18 anos, também do 3º ano, confirmou o episódio contado por Freitas. Segundo ele, a “seleção” era feita por um vice-diretor - o que foi negado pela Secretaria, que disse que o cargo é ocupado por uma mulher. “O vice-diretor não deixou entrar por causa de faltas. Eu falei que não faltava. Era meu primeiro mês na manhã, estudava à noite”, reclamou. Ele alegou que a diretora da escola, Daniela Yuri, também estava presente e afirmou que a prova deles não estava na unidade. “Ela falou que o governo não mandou para os alunos que faltavam muito”. Para Santos, ela ainda teria dito que talvez o exame dele não estivesse no colégio por ele ter sido aluno no período noturno.  “Eu não tenho desempenho muito bom. Eu  acho que ela não quis deixar por causa disso”, disse.  

O ex-aluno Matheus Cabral também disse ter sido impedido de entrar, mas só no primeiro dia da avaliação, que traz questões de matemática e português. No segundo dia da avaliação, o jovem conseguiu fazer o exame. “Falaram que a gente faltava muito, mas isso é mentira. Tinha gente da minha sala que quase não ia para as aulas e fez. Só cortaram a gente”, disse. O estudante disse que só conseguiu fazer o exame no segundo ia quando reclamou à diretora da unidade. A alegação seria a de que a prova destes estudantes sequer estava no local. “O inspetor falou que nosso nome não estava nas provas porque faltávamos”. A Secretaria confirmou que nenhum dos três fez o primeiro dia das provas, mas ressaltou que Cabral participou do segundo, assim como relatado por ele.  Nenhum dos três alunos comunicaram o ocorrido aos pais nem fizeram denúncia formal. 

A reportagem conversou com outros  estudantes do último ano do ensino médio que, apesar de terem conseguido fazer a prova, disseram ter visto o mesmo episódio, até no período noturno. “Barraram os moleques por falta. Achei até que iam falar (para ele não entrar)”, relatou Idiglo da Silva, de 18 anos, que finalizou o 3º ano do ensino médio em 2014. 

A aluna Claudineia Rabelo diz ter visto a mesma situação no período noturno e afirmou  que "os coordenadores" da escola estavam no portão, com uma lista de nomes. “Eles estavam com uma cartolina com os nomes”, relatou. Outra aluna que disse ter visto o episódio, Deyse Palomares também disse que o "filtro" era de presença. "Eles não deixaram os alunos que vivem no corredor e faltam muito na escola fazer a prova".

Ex-aluna do período noturno, Jarlyanne Santos  relatou que conhecia os estudantes e que eles realmente “faltavam muito”. No entanto, afirmou não ter visto que foram impedidos. “Eles não são do tipo que estuda, não sei por que queriam fazer a prova”, comentou.

A diretora do colégio, Daniela Yuri, negou qualquer tipo de seleção de alunos e afirmou que “todos têm direito de fazer a prova”. "Não teve esse procedimento, eu acompanhei. Isto nunca aconteceu", disse. De acordo com a diretora, o estudante só pode ser impedido caso esteja “muito atrasado”.  "O Saresp tem horário para começar. Se o aluno chegou meia hora atrasado, aí não dá".

Em 2013, o colégio teve 143 participantes no ensino médio e ficou abaixo da média estadual do Saresp em todas as disciplinas do exame. Em Língua Portuguesa (233,4), História (243,8) e Geografia (239,8), o conhecimento dos estudantes atingiu o desempenho “básico”. Já em Matemática (240,8), considerou-se que o conhecimento dos estudantes estava abaixo do básico. 

Bônus. O Saresp é um dos componentes do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp), que garante bônus salariais a todos os funcionários da escola que aringir ou superar as metas estabelecidas. Além da nota da prova em Matemática e Português, o índice contabiliza as taxas de aprovação e abandono escolar. O prêmio é pago em março. No ano passado, o Estado pagou R$ 700 milhões para mais de 255 mil servidores de 4.030 escolas. As faltas dos profissionais também são consideradas no cálculo do bônus, além do perfil socieconômico das escolas.

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