Alunos de Guaianases e da Paulista se preparam para o Enem

Escolas que receberam pior e melhor média em SP dão pesos distintos para o exame

Guilherme Soares Dias, especial para o Estado,

24 Outubro 2013 | 20h11

Estudantes de diferentes realidades se preparam para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que ocorre no sábado, 26, e no domingo 27. Em São Paulo, as escolas que receberam a menor e a maior média no exame de 2011 – o último com dados divulgados – dão tratamentos diferentes para o exame. No Colégio Objetivo Integrado, que fica na Av. Paulista, na região central da cidade, o foco no vestibular é claro e todos os alunos participarão do exame, enquanto na Escola Estadual Aquilino Ribeiro, em Guaianases, na zona leste, a maioria dos alunos trabalha e não fará o exame.

O Objetivo Integrado, que obteve média de 737 pontos, e foi classificado como a melhor de São Paulo e do País, é considerado a “menina dos olhos”da rede Objetivo e tem professores em tempo integral, que oferecem atendimento personalizado aos alunos. Os 44 alunos da única turma do 3.º do ensino médio farão o Enem. Na sala de aula, que ainda tem quadro negro e giz, mas permanece sem anotações, um professor utiliza o microfone para explicar questões sobre o Enem, enquanto os estudantes acompanham o conteúdo pela apostila do colégio.

 

A preparação para o Enem, de acordo com coordenadora pedagógica do colégio, Vera Lúcia da Costa Antunes, começa no 1.º ano do ensino médio. “Vamos fazendo com que assimilem o tipo de questões, leiam textos e entendam o que está sendo perguntado”, diz. No 3.º ano, os alunos fazem quatro simulados para o Enem. Com tanta preparação, a expectativa na escola é de que a nota máxima alcançada em 2011 se repita neste ano. “Esse resultado aumenta autoestima e cria respeito”, afirma Vera.

 

Igor Perruso Gonçalves, de 17 anos, vai prestar o Enem para utilizá-lo como primeira fase do vestibular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Desde o começo do ensino médio estudo bastante. Temos provas do estilo Enem em que podemos treinar tempo, ansiedade e o tipo de questões”, ressalta. Para o estudante, o primeiro lugar conquistado pela escola em 2011 é motivo de orgulho. “É importante manter”, considera.

 

Já Liara Guinsberg, de 17 anos, que acumula 45 medalhas em olimpíadas do conhecimento, também vai prestar o Enem para utilizá-lo como primeira fase da Unifesp, em que tenta ingressar em Direito, mas o foco mesmo é a USP. “Estou bem acostumada a fazer provas. Não tenho mais ansiedade, já treinei bastante e isso será um empecilho a menos”, afirma.

 

Pior média. A cerca de 35 quilômetros dali, os estudantes do 3.º ano da Escola Estadual Aquilino Ribeiro ainda têm baixa adesão ao exame. São 151 alunos no último ano do ensino médio – todos no período noturno –, dos quais somente 30 devem fazer a prova. “A maior parte deles trabalha e acha que ainda é cedo para buscar a universidade, e mais da metade são alunos mais velhos que cursam o Ensino de Jovens e Adultos (EJA)”, lembra a diretora do colégio Maria Tereza de Almeida.

 

Para incentivar os alunos a prestar o Enem, o professor de Química e Física da escola deu dois pontos na média dos estudantes que se inscrevessem no exame, que mesmo assim teve baixa adesão. Em 2011, a média geral da escola ficou em 438 pontos, a pior de São Paulo, aparecendo na 9.525.º posição entre as 10.076 escolas brasileiras incluídas no ranking. “O resultado de 2011 refletiu de maneira ruim, mas isso não quer dizer que somos a pior escola. Temos fila de estudantes querendo estudar aqui”, afirma a diretora.

 

Na sala de aula, as mesas são pichadas e o quadro negro está tomado por conteúdo das aulas escrito com giz. O estudante Diógenes Ribeiro, 17 anos, pede para ser entrevistado. Filho de professora, ele diz que a prova é importante para avaliar o que aprendeu no ensino médio. “Me sinto seguro, muitas pessoas têm preconceito só porque não moro em bairro nobre, mas quero mostrar que também sou capaz”, diz o rapaz, que vai tentar ingressar em Direito na USP. O estudante trabalha durante seis horas em um escritório de contabilidade e, além da escola, estuda duas horas por dia para o exame.

 

Já a auxiliar de almoxarifado Maria Margareth de Sá, de 47 anos, cursa o 3.º ano no EJA, após ter parado de estudar durante 20 anos. “Minhas filhas entraram na universidade e eu não quis ficar para trás”, diz. O Enem será usado para tentar um desconto no curso de Logística. “Estudo na hora do almoço no trabalho. Não estou completamente preparada, mas tenho força de vontade”, afirma.

 

Para o estudante Hiago Braz, de 17 anos, o Enem deve ficar para os próximos anos. “Esqueci de fazer a inscrição. Pretendo fazer no ano que vem, mas ainda não sei que curso fazer na faculdade”, diz. Ao fim das entrevistas, a diretora do Aquilino Ribeiro direciona a reportagem para o estacionamento da escola. “Pedi para o motorista entrar, lá fora é muito perigoso nesse horário”, diz.

 

Fator socioeconômico. Para o doutor em Educação pela USP Rodrigo Travitzki, a realidade vivida pelos alunos de Guaianases e pelos estudantes do Objetivo Integrado ajudam a explicar as notas tão díspares. “O fator socioeconômico explica 75% da nota. O resto são questões como a escola ser pública ou privada e o ensino oferecido”, diz. Ele ressalta ainda que os indicadores são fiéis para avaliar os alunos, mas não as instituições. “Não é só um teste que consegue avaliar as escolas, além disso, a maior parte das mais bem avaliadas fazem seleção de alunos e utilizam isso como marketing”, considera.

Já o coordenador de projetos da Fundação Lemann, Ernesto Martins Faria, lembra que a inscrição para o Enem é feita pelo próprio aluno e é facultativa, o que faz com que varie o percentual de participantes no exame em cada escola. Além disso, o especialista ressalta que o Enem avalia competências adquiridas durante toda a Educação Básica. “Esses dois fatores fazem com que seja bem difícil avaliar as escolas pela média de seus alunos. A depender da taxa de participação e do histórico educacional, que é muito influenciado pelo nível socioeconômico dos estudantes, um mesmo resultado pode ser interpretado de diversas formas”, avalia.

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