Alunos da USP montam carro de competição e celebram aprendizado

Realizada nos dias 17 e 19, a Fórmula SAE dará a estudantes de engenharia a oportunidade de mostrar o que aprenderam em sala

Fernando Arbex, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2014 | 16h03

SÃO PAULO - Organizado pela Sociedade de Engenheiros de Mobilidade (SAE Brasil), a Fórmula SAE dará a estudantes de engenharia de todo o País a oportunidade de, entre os dias 17 e 19, mostrar na prática o aprendizado adquirido em sala de aula. Representando 35 instituições de ensino pelo Brasil, carros construídos por alunos - responsáveis por levantar todos os recursos necessários para a execução do projeto - competirão em provas variadas, em que será possível avaliar velocidade, mecânica, aerodinâmica e capacidade de aceleração e durabilidade dos protótipos.

Há mais de um mês a proximidade com as provas mobiliza totalmente graduandos, mestrandos e doutorandos da Escola de Engenharia de São Carlos da USP (EESC-USP). Sexto colocado em 2013, o time amarelo e preto trabalha para derrubar a recente hegemonia estabelecida pelo Centro Universitário da FEI - São Bernardo e quebrar um jejum de títulos que dura desde 2005.


Porém, mais importante do que vencer o torneio que, nesta temporada, será realizado em Piracicaba, o projeto tem valor experimental para alunos que cumprem carga horária integral durante os quatro primeiros anos de curso. Sem tempo para estagiar na maioria dos casos, a equipe atual de 74 futuros engenheiros se divide em funções variadas, que vão da captação de recursos através de patrocínios até a montagem operacional de um carro de corrida.

O coordenador de Logística do grupo, Renan Stefanutti apresenta o projeto e comemora a oportunidade de evoluir profissionalmente ainda antes de ingressar no mercado de trabalho.

 

Aos 20 anos, o estudante cursa o terceiro ano de Engenharia de Produção e está envolvido com a Fórmula SAE desde seu primeiro semestre na universidade. Ele e todos os demais colegas tiveram de passar por um processo seletivo quando eram calouros, de modo que a escolha dos participantes não é aleatória e impede que alunos desinteressados façam parte. "Os escolhidos passam depois por um período de três meses de trainee, fazendo rodízio por todas as etapas de montagem do carro e áreas de atuação do projeto", explicou Stefanutti.

Professor do curso de Engenharia Mecânica da EESC-USP e orientador do projeto, o Doutor em Engenharia Álvaro Costa Neto foi um dos responsáveis por trazer ao Brasil o Fórmula SAE no ano de 2003 e exalta a importância extracurricular adquirida pelos estudantes. "É uma experiência muito rica porque eles aprendem coisas que não seriam possíveis no programa curricular. Trabalho em equipe, respeito a prazos, gestão financeira e a aplicação prática de conceitos interdisciplinares em um mesmo projeto", afirmou o educador.

Aos 26 anos, o piloto Marcos Kenji, o Marcola, é um dos veteranos da equipe. O aluno se dedicou três anos ao projeto da EESC-USP, passando pelas funções de chefe da direção, chefe da suspensão, coordenador estrutural e chefe dos pilotos, até ser qualificado pelo Ciência sem Fronteiras, programa do governo federal que dá a universitários bolsas de estudos no exterior. Na Universidade de Bath, na Inglaterra, Marcola se manteve ativo na Fórmula SAE, colaborando com seus colegas ingleses nas etapas da competição britânica.

"Foi um intercâmbio muito bom, pude voltar e aplicar aqui o que aprendi lá", afirmou o estudante sorocabano, que no Reino Unido atestou a qualidade do trabalho que ele encontra em São Carlos. "Na parte técnica, nós aqui não devemos nada a eles. Somos inferiores na questão do investimento, lá o projeto consegue angariar mais recursos", relatou.

A explicação é que poucas empresas no Brasil têm interesse em investir dinheiro em projetos que dão como maior retorno a qualificação de profissionais. Em muitos casos, o foco das multinacionais que se instalam no País é apenas na produção e não no desenvolvimento de tecnologia, ao contrário do que acontece em outras nações. Segundo o professor Álvaro Costa Neto, o protótipo chega a custar mais de R$ 100 mil, excluindo possíveis gastos com a remuneração dos alunos, que são proibidos de ganhar bolsa para participar da atividade. Stefanutti calcula que o carro deles tenha custado R$ 350 mil, sendo só 10% pago pela EESC-USP e o resto adquirido através de patrocinadores.

Oriunda da Baja Series, uma competição estudantil entre protótipos que rodam em estradas de terra, a Fórmula SAE é disputada também nos Estados Unidos e em países da Ásia e da Europa. Atual campeã da edição brasileira, a FEI alcançou o oitavo lugar entre os 40 participantes da etapa mundial disputada no último mês de maio em Brooklyn, no estado norte-americano de Michigan. Em março de 2015, os dois primeiros colocados da competição em Piracicaba disputarão a etapa internacional.

Cumpridas todas as exigências técnicas e passadas as provas de skidpad (duas voltas na pista em que são computados o melhor tempo), aceleração, autocross (percorrer um traçado em forma de "8") e enduro (prova de resistência), os estudantes de alguma das 35 instituições de ensino inscritas se tornarão campeões no dia 19 de outubro - sem a necessidade de uma tradicional corrida automobilística, por questões de segurança. "Esse é o nosso ano", disse Stefanutti, confiante no título.

Notícias relacionadas
Mais conteúdo sobre:
Fórmula SAEUSPSão Carlos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.