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Produção semanal e leitura são dicas de aluno nota mil do Enem; confira redação

53 estudantes tiveram nota máxima e 143 mil zeraram a redação

da redação, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 12h24

SÃO PAULO - "Tudo o que eu via, ouvia ou lia servia como referência para escrever e treinar para a redação", conta Gabriel Lopes, de 20 anos, um dos 53 estudantes do País com nota máxima na redação do Exame Nacional do Ensino Médio 2019 (Enem). As notas do exame foram divulgadas nesta sexta-feira, 17. Para o jovem, o segredo para alcançar a nota mil é o treino. 

"Eu escrevia redações toda semana, mas não fazia muitas. No máximo duas por semana. Acredito que o diferencial tenha sido ler muito para ter argumentos para escrever sobre qualquer assunto e também pensar e debater sobre temas que poderiam ser abordados", diz Lopes. A redação deste ano teve como tema, " democratização do acesso ao cinema no Brasil".

O  jovem, que estuda no Colégio PH, no Rio,  fez a prova do Enem pela terceira vez. Ele quer estudar Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que estabeleceu a nota da redação com peso quatro na nota final dos candidatos. "Eu nunca tive dificuldade em escrever, mas, como a nota na redação pesa muito para entrar na UFRJ, eu me dediquei muito porque sabia que uma nota alta seria o meu diferencial", conta. 

Lopes diz que ficou surpreso ao descobrir o tema da redação, mas logo se tranquilizou porque havia treinado outros textos em que escreveu sobre cultura. "Não esperava que fossem falar sobre uma área tão específica, como o cinema. Foi uma surpresa boa e eu tinha boas referências para apresentar no texto", diz. Ele citou um filme que tinha visto sobre jovens da periferia de São Paulo que usavam a produção cinematográfica para mostrar sua visão de mundo. 

Leia abaixo a redação escrita por Lopes (o texto a seguir é do rascunho elaborado pelo estudante):

O longa-metragem nacional "Na Quebrada" revela histórias reais de jovens da periferia de São Paulo, os quais, inseridos em um cenário de violência e pobreza, encontram no cinema uma nova perspectiva de vida. Na narrativa, evidencia-se o papel transformador da cultura por intermédio do Instituto Criar, que promove o desenvolvimento pessoal, social e profissional dos alunos por meio da sétima arte. Apresentando-se como um retrato social, tal obra, contudo, ainda representa a história de parte minoritária da população, haja vista o deficitário e excludente acesso ao cinema no Brasil, sobretudo às classes menos favorecidas. Todavia, para que haja uma reversão do quadro, faz-se necessário analisar as causas corporativas e educacionais que contribuem para a continuidade da problemática em território nacional.

Deve-se destacar, primeiramente, o distanciamento entre as periferias e as áreas de consumo de arte. Acerca disso, os filósofos Adorno e Horkheimer, em seus estudos sobre a "Indústria Cultural", afirmaram que a arte, na era moderna, tornou-se objeto industrial feito para ser comercializado, tendo finalidades prioritariamente lucrativas. Sob esse prisma, empresas fornecedoras de filmes concentram sua atuação nas grandes metrópoles urbanas, regiões onde prevalece a população de maior poder aquisitivo, que se mostra mais disposta a pagar um maior valor pelas exibições. Essa prática, no entanto, fomenta uma tendência segregatória que afasta o cinema das camadas menos abastadas, contribuindo para a dificuldade na democratização do acesso a essa forma de expressão e de identidade cultural no Brasil.

Ademais, uma análise dos métodos da educação nacional é necessária. Nesse sentido, observa-se uma insuficiência de conteúdos relativos à aproximação do indivíduo com a cultura desde os primeiros anos escolares, fruto de uma educação tecnicista e pouco voltada para a formação cidadã do aluno. Dessa forma, com aulas voltadas para memorização teórica, o sistema educacional vigente pouco estimula o contato do estudante com as diversas formas de expressão cultural e artística, como o cinema, negligenciando, também, o seu potencial didático, notável pela sua inerente natureza estimulante. Tal cenário reforça a ideia da teórica Vera Maria Candau, que afirma que o sistema educacional atual está preso nos moldes do século XIX e não oferece propostas significativas para as inquietudes hodiernas. Assim, com a carência de um ensino que desperte o interesse dos alunos pelo cinema, a escola contribui para um afastamento desses indivíduos em relação ao cinema, o que constitui um entrave para que eles, durante a vida, tornem-se espectadores ativos das produções cinematográficas brasileiras e internacionais.

É evidente, portanto, que a dificuldade na democratização do acesso ao cinema no Brasil é agravada por causas corporativas e educacionais. Logo, é necessário que a Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania torne tais obras mais alcançáveis ao corpo social. Para isso, ela deve estabelecer parcerias público-privadas com empresas exibidoras de filmes, beneficiando com isenções fiscais aquelas que provarem, por meio de relatórios semestrais, a expansão de seus serviços a preços populares para regiões fora dos centros urbanos, de forma que, com maior oferta a um maior número de pessoas, os indivíduos possam efetivar o seu uso para o lazer e para o seu engrandecimento cultural. Paralelamente, o Ministério da Educação deve levar o tema às escolas públicas e privadas. Isso deve ocorrer por meio da substituição de parte da carga teórica da Base Nacional Comum Curricular por projetos interdisciplinares que envolvam exibição de filmes condizentes com a prática pedagógica e visitas aos cinemas da região da escola, para que se desperte o interesse do aluno pelo tema ao mesmo tempo em que se desenvolve sua consciência cultural e cidadã. Nesse contexto, poder-se-á expandir a ação transformadora da sétima arte retratada em "Na Quebrada", criando um legado duradouro de acesso à cultura e de desenvolvimento social em território nacional.

 

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