Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2018 | 03h00

Aluno do 3.º período da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Igor Soares foi o vencedor do 13.º Prêmio Santander Jovem Jornalista, realizado em parceria com a Semana Estado de Jornalismo. Por sua reportagem sobre ressocialização de internos na Fundação Casa, ele vai passar um semestre letivo na Universidade de Navarra, na Espanha, em 2019.

“O prêmio significa muito para mim, mas não é uma conquista pessoal. E sim coletiva”, diz Soares. “É uma reafirmação minha como futuro jornalista e um símbolo de muita luta pela sobrevivência. Minha mãe sempre trabalhou muito para nos manter.” O prêmio para o vencedor também inclui a publicação da reportagem nas versões impressa e online do Estado, além de um laptop. A cerimônia de entrega da premiação ocorreu na semana passada, na sede do Santander, após uma rodada de entrevistas com todos os finalistas. 

Amanda Lüder (UFPR), Júlia da Cruz Carvalho (UFRN), Maria Clara Joia Bezerra Pestre (UFF), Rafaela Ainsworth Rey (UFBA) e Rayssa Ferreira da Motta (UERJ) também ganharam laptops. Os textos podem ser lidos na sequência. De 25 a 28 de setembro, 320 universitários participaram da Semana Estado de Jornalismo, que teve como pautas desde como cobrir uma eleição até o uso de robôs.

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ONG da Grande São Paulo trabalha na ressocialização de jovens egressos da Fundação Casa

Instituto Papel de Menino atua em três unidades do Complexo de Franco da Rocha, atendendo adolescentes e suas famílias

Igor Soares*, Especial para o Estado

04 Dezembro 2018 | 03h00

Deixar a Fundação Casa nem sempre é sinal de plena liberdade. Anderson Felipe Pereira de Carvalho, de 23 anos, é um dos muitos jovens egressos do sistema socioeducativo brasileiro. Pai de cinco filhos, ele faz parte de um grupo seleto que conseguiu emprego após a internação.

Carvalho foi acolhido pelo Instituto Papel de Menino (IPM), na Grande São Paulo, que trabalha para garantir a valorização pessoal e o resgate aos vínculos familiares dos que cumprem medidas socioeducativas na Fundação Casa (antiga Febem).

Na instituição, a ressocialização é feita por meio de educação, arte, cultura e qualificação profissional. Criada em 2008, a ONG atua em três unidades do Complexo de Franco da Rocha, interior do Estado. Diretora da instituição, Silvana Goulart, de 46, conta que por ano são atendidos, em média, 500 jovens e adolescentes, além das famílias deles, com uma equipe de voluntários que realiza visitas

semanais às unidades.

Os jovens aprendem a reutilizar embalagens de papel sulfite para confeccionar bolsas sustentáveis. As embalagens são doação de uma empresa parceira há dez anos. Além disso, a ONG oferece o curso de barbearia, que conta com 18 internos.

Outro projeto do instituto é a criação da padaria escola, que oferecerá cursos na área de panificação, garantindo mais oportunidades de emprego para os jovens reclusos. "Quando o menino ganha liberdade, ele recebe atendimento psicológico e acompanhamento, em conjunto com a família, e, a partir daí, é encaminhado para o mercado de trabalho", diz Silvana.

O ex-interno Carvalho conta que atravessar o preconceito da sociedade na busca por uma emprego foi um dos maiores desafios. "Por pouco, não me tornei mais um que reincidiu para o crime", conta o jovem. "Havia um desejo em mim de sair daquele lugar (Fundação Casa) e mudar de vida."

O chefe dele, Luciano Amorim, de 40, explica que a contratação significou dar uma oportunidade necessária de ressocialização. "Existe um estigma sobre quem saiu da reclusão, porque a pessoa fica marcada", diz Amorim. "Mas nós, empresários, precisamos dar um voto de confiança." Para ele, organizações como o IPM são importantes para criar essa ponte entre a empresa e o egresso.

Considerando o sistema prisional, voltado para maiores de 18 anos, o Brasil tem uma população carcerária de mais de 600 mil pessoas, a terceira maior do mundo, segundo relatório do Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP 2.0), realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). E a taxa de reincidência entre ex-detentos estava em 24,4%, em 2015, quando foi divulgada a pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a pedido do CNJ.

Em julho deste ano, o governo lançou a Política Nacional de Trabalho no Âmbito do Sistema Prisional, que tem por objetivo dar oportunidade de emprego para presos e ex-detentos. O decreto obriga empresas que prestam serviços para a União, com contratos acima de R$ 330 mil, a contratar egressos do sistema penitenciário.

*Igor Soares é vencedor do 13º Prêmio Santander Jovem Jornalista

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ONG OLÁ promove em Curitiba a autonomia de pessoas com deficiência intelectual

Grupo conhecido por ser o menos impactado pelas políticas para minorias tem no espaço atividades que vão de marcenaria a meditação

Amanda Lüder*, Especial para o Estado

04 Dezembro 2018 | 03h00

Pegar o ônibus e lavar a louça eram tarefas fora do alcance de Gabriela Morzelli, de 19 anos. Mas não mais. A jovem, que tem deficiências intelectual e auditiva, é um dos seis integrantes da pequena ONG Lar Assistido (OLÁ), na capital paranaense. Graças à iniciativa, no último ano a estudante de ensino médio na Educação de Jovens e Adultos, a EJA, conseguiu ampliar suas funções cotidianas, dentro e fora de casa. O projeto ganhou forma em 2017 e promove atividades que estimulam a independência de pessoas com déficit cognitivo.

Os participantes, jovens em sua maioria, são acolhidos num centro dia, conhecido como “escola da vida”. De segunda a sexta, fazem atividades como marcenaria, culinária, horta, exercícios físicos e meditação. Antes de descobrir a OLÁ, Sandra Morzelli, de 57, mãe de Gabriela, matriculou a filha em diferentes atividades extracurriculares. A jovem sofreu preconceito e era deixada de lado pelos professores. Na ONG, as atividades são adaptadas de acordo com suas capacidades. “Se começam um processo com ela e dá errado, o problema não é mais a Gabriela, é o processo”, observa Sandra.

No Brasil, 6,7% da população têm algum tipo de deficiência, segundo o Panorama Nacional e Internacional da Produção de Indicadores Sociais de 2018, feito a partir dos dados do Censo do IBGE de 2010. Gabriela faz parte do 1,4% - cerca de 2,9 milhões de pessoas - com deficiência intelectual.

O déficit se refere a limitações no funcionamento intelectual e na adaptação em habilidades práticas e sociais. O dado é da Associação Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvimento, organização dos EUA que fundamenta a pesquisa.  Autistas e downs, por exemplo, são parte do grupo.

A especialista em transtornos globais do desenvolvimento Maria de Lourdes Batista, de 55, explica que é fora do espaço doméstico que esses jovens conseguem desenvolver autonomia. “Eles têm dificuldade de aquisição e retenção de conteúdos, diferentemente de outras deficiências. O ideal é fazer esse trabalho em escolas ou instituições.”

Célia Ângelo, de 52, presidente e uma das fundadoras da ONG, alerta que essas pessoas são tratadas de forma infantil dentro de casa. Ela é mãe de Amon Ângelo Branco, de 28, autista. “Às vezes, me pego cortando uma fatia de pão, o que ele mesmo poderia fazer.” A principal motivação para dar início ao projeto foi a preocupação com o futuro do filho quando ela não estiver mais presente. A ONG, que sobrevive de doações e não recebe subsídio governamental, tem como objetivo construir moradias compartilhadas, adaptadas às necessidades dos assistidos.

A assistência da ONG é importante para todos os que estão ao redor das pessoas com deficiência intelectual.  "Um filho especial absorve toda a nossa energia, e somos muito sozinhas", conta Sandra, mãe de Gabriela. "Foi muito bom achar um lugar que me entende e ajuda na educação da minha filha." O próximo passo da ONG, em estudo, é a inserção dos participantes no mercado de trabalho.

* É finalista do 13º Prêmio Estado de Jornalismo

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Júlia da Cruz Carvalho*, Especial para o Estado

04 Dezembro 2018 | 03h00

Cotista, primeira integrante da família a entrar em uma universidade pública e cria da Maré: Daniele Figueiredo, de 23 anos, é umas das 11 voluntárias do projeto Unifavela, que ajuda estudantes da periferia a ingressar na faculdade. O grupo se reúne na laje da Rua Principal, na Favela Nova Holanda, dentro do Complexo da Maré, na zona norte do Rio.

A ideia surgiu quando Arley Sena do Nascimento, de 18, atualmente no segundo período de Química Industrial, conseguiu a vaga na UFRJ. Ele havia sido beneficiado por um projeto gratuito de incentivo aos estudos também na comunidade e decidiu retribuir montando uma rede de monitoria gratuita. "Estou em uma das melhores universidades da América Latina e tive auxílio de pessoas para chegar lá”, explica Arley. “Precisava ajudar outras pessoas também."

 

Arley e o amigo Laerte Breno, de 23, estudante de Letras, montaram um espaço improvisado, na laje de um dos alunos, onde contam com um quadro sustentado por tijolos para dar aulas. Entre as disciplinas ministradas estão Química, História, Física e Redação. “Nosso intuito é mostrar que a favela pode, sim, ocupar a universidade”, garante Laerte.

 

No Brasil, apenas 15% dos brasileiros têm diploma de ensino superior, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Rio de Janeiro, 89,1% da população está no perfil inverso, ou seja, não possui uma formação no ensino superior.

 

“Quando a gente é da favela, é mais natural que a gente vá para o mercado de trabalho sem ter formação, para conseguir ajudar dentro de casa”, conta Cristian Gomes, de 20, que sonha cursar administração. “Estudo para desconstruir a realidade do pobre favelado. Entrar na universidade é um sonho para muitos jovens, e aqui você tem uma pessoa que diz: ‘Olha, vou te ajudar’.”

Segundo Tiago Nascimento, de 21, uma das dificuldades para frequentar as aulas, apesar de gratuitas e perto de casa, são os tiroteios frequentes na favela, que se agravam com a guerra entre as facções. No entanto, os incentivos do grupo e a cobrança por rendimento, algo que não tiveram durante o ensino escolar, reforçam a vontade do estudante. “A gente sai de um ensino básico totalmente ruim e chega a um pré-vestibular para ver coisas que não está apto a ver”, diz Nascimento. “Você fica desesperado para saber se vai conseguir entrar em uma universidade. Essa iniciativa ajuda.”

O projeto não conta com investimentos externos e por isso está em busca de patrocínios para auxiliar com os custos de xerox, material de limpeza e objetos de uso nas aulas, como canetas de quadro e apagador. O próximo passo, segundo o fundador da Unifavela, é encontrar um espaço oficial, para que os próprios moradores do Complexo passem a olhar o ambiente de estudo como algo profissional, apesar da gratuidade. “Iniciamos neste ano, já temos muitos alunos e vamos precisar de um lugar fixo”, explica Arley.

 

Enquanto isso, as aulas de segunda a sexta revigoram as forças da estudante Julliana Sousa, de 18, que pretende cursar Química. “Chegar à universidade seria uma vitória”, resume.

 

* É finalista do 13º Prêmio Santander Jovem Jornalista

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Alunos transgêneros superam discriminação e entram na universidade com curso gratuito

Reintegrar esse grupo ao ambiente escolar é um dos objetivos do PreparaNem, em Niterói (RJ)

Maria Clara Joia Bezerra Pestre*, Especial para o Estado

04 Dezembro 2018 | 03h00

Ser chamado por um nome com o qual você não se identifica. Usar banheiros que não correspondem à sua identidade de gênero. Virar alvo de piada, discriminação e, muitas vezes, violência. A realidade que alunos transgêneros enfrentam desde os níveis mais básicos da educação no Brasil se reflete no ensino superior, onde há baixa representatividade e muitos desafios.

Para mudar esse cenário, foi criado em 2016 o curso PreparaNem de Niterói, no Estado do Rio, no qual professores voluntários ajudam alunos LGBT a estudar para o Enem, concursos públicos e cursos profissionalizantes. O objetivo é reintegrar essa população no ambiente escolar depois de trajetórias difíceis no ensino básico, explica Bruna Benevides, coordenadora do curso.

Dentro das salas de aula, a preparação para as provas é acompanhada por debates sobre racismo, machismo e discriminação contra a população LGBT. “Fazemos um trabalho de empoderamento e fortalecimento para que as pessoas se reconheçam como cidadãs e possam reivindicar, a partir da entrada no mercado formal ou mesmo na universidade, os direitos que lhes têm sido historicamente negados”, disse Bruna.

Ex-aluna do curso, Luana Santos tem 23 anos e hoje estuda Biblioteconomia na Universidade Federal Fluminense (UFF). Aos 18, se identificou publicamente como mulher transexual. “Acho que foi mais difícil assumir para a minha família. Principalmente para o meu pai”, diz Luana. “Essa foi a primeira vez em que ele bateu em mim. Fui para uma praça lá perto de casa e passei a noite lá.”

Na escola, a situação também era difícil. “A maioria dos professores não queria reconhecer a minha identidade de gênero. E os alunos muitas vezes achavam que eu estava brincando, que era uma frescura”, conta Luana.

A realidade vivida por ela não é exceção entre alunos transgêneros no Brasil. Segundo pesquisa da Secretaria de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), publicada em 2016, 68% dos alunos LGBT já foram agredidos verbalmente na escola por causa de sua identidade ou expressão de gênero.

Desde que foi criado, o PreparaNem já ajudou 76 alunos nessa situação e tem uma taxa de aprovação de 70%, fortalecendo a presençade pessoas transgênero na universidade. Hoje, essa representatividade ainda é pequena, afirma Keila Simpson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

"Essa população ainda está muito distanciada do ensino superior, da formação", diz a ativista. "Cursar uma faculdade para uma pessoa trans é quase vencer uma batalha contra tudo e contra todos."

Essa vitória já é realidade para Luana que hoje até sonha em fazer uma segunda faculdade. Para Keila, casos como o dela serão mais comuns. “Teremos mais pessoas trans formando, cada vez mais pessoas trans sendo protagonistas das suas próprias histórias."

*É finalista do 13º Prêmio Santander Jovem Jornalista

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Games baianos 'guiados' por adolescente sertaneja e garoto cego são retratos da inclusão

Especialista em jogos acredita que representação é fundamental para valorização das diferentes culturas, etnias e gêneros

Rafaela Ainsworth Rey*, Especial para o Estado

04 Dezembro 2018 | 03h00

O sertão nordestino explorado por uma jovem e um suspense investigativo guiado por um garoto cego são os cenários de jogos digitais concebidos, produzidos e lançados neste ano na Bahia. A produção de games baianos se consolida e abre as portas do Estado para iniciativas que promovem a inclusão e pluralidade no mercado dos jogos.

O game de aventura "Árida" conta a história de Cícera, de 13 anos, que enfrenta desafios do sertão à época da Guerra de Canudos. Desenvolvido pela empresa Aoca Game Lab, liderada pelo game designer Filipe Pereira, o jogo apostou na representatividade cultural e feminina como um passo na contramão da indústria.

“Só o fato de termos uma personagem feminina, negra, nordestina, já coloca o jogo num porcentual mínimo em relação à produção mundial”, conta Pereira. “Para além de um destaque comercial, é uma intenção política da nossa parte.”

O jogo ganhou um edital da Ancine e obteve apoio financeiro de R$ 250 mil, verba que já garantiu a produção do segundo capítulo do game. “Isso foi um indicador de que estamos no caminho certo em investir na temática nacional”, conta Pereira.

Já o game de suspense "Breu" tem como personagem principal o jovem cego Marco, de 15 anos, que guia a investigação. O jogo é constituído exclusivamente por recursos sonoros, sem nenhum tipo de interação visual com o jogador. Esse gênero, conhecido como audiogame, é bastante utilizado para jogos voltados a pessoas com deficiência visual.

Tharcísio Vaz, idealizador e diretor musical do jogo, diz que apesar de o Breu ser um audiogame, ele não exclusivo para deficientes visuais. “O nosso teve uma filosofia de inclusão”, diz. O objetivo foi construir uma narrativa imersiva e de maior complexidade, que não se restringisse apenas ao foco educativo que costumam ter os jogos do gênero voltados à acessibilidade.

A consolidação do mercado baiano de games conta com uma rede de apoio financeiro e de capacitação. O coletivo Bahia Indie Game Developers, formado por um grupo de profissionais e estudantes, é um dos pontos de suporte para quem quer entrar no ramo dos videogames, com oferta de capacitação e realização de trabalhos colaborativos. Outra iniciativa de apoio é a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb). “A Fundação enxerga no fomento aos jogos digitais a oportunidade de inclusão", explica o diretor de Inovação da instituição, Alzir Mahl.

Os jogos obtiveram também o suporte do centro de pesquisa Comunidades Virtuais, formado na Universidade Estadual da Bahia (Uneb) e referência no desenvolvimento de jogos digitais no Estado. Mestre em Educação e Jogos Eletrônicos, Lynn Alves enfatiza a importância na temática desses jogos para a sociedade.

“Essa valorização das diferentes culturas, etnias e gêneros é fundamental para formação do ser humano, ainda mais em tempos tão difíceis onde essas questões de respeito à diversidade e diferença estão em cheque”, afirma Lynn, que também é professora coordenadora do Comunidades Virtuais.

*Finalista do 13º Prêmio Santander Jovem Jornalista

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Projeto carioca ganha prêmio ao garantir renda a refugiadas por meio da costura

Mulheres do Sul Global auxilia africanas que têm dificuldade para se inserir no mercado de trabalho formal

Rayssa Ferreira da Motta*, Especial para o Estado

04 Dezembro 2018 | 03h00

É em uma casa de dois andares no Itanhangá, zona oeste do Rio, que um grupo de mulheres vindas do Congo e de Angola está enxergando uma chance de recomeçar suas vidas longe de um passado de violências físicas e psicológicas. No espaço, funciona um ateliê de costura voltado para o empoderamento econômico de mulheres em situação de refúgio.

Iniciado em 2017, o projeto Mulheres do Sul Global acaba de ser escolhido como um dos dez mais inovadores do programa Shell Iniciativa Jovem. A entrega do prêmio foi na Malásia, em novembro.

O projeto emprega imigrantes africanas que, apesar da experiência prévia com a costura, têm dificuldades de encontrar uma vaga de emprego formal no setor de produção têxtil. A idealizadora da iniciativa, Emanuela Farias, conta que em alguns países do continente africano os cursos de costura integram a grade curricular das escolas. “A ideia é contribuir para que congolesas e angolanas possam exercer o ofício que carregam em suas origens e gerar impacto social em sua vida e de suas famílias”, explica.

Os encontros ocorrem uma vez por semana para elaboração de croquis, modelagens e corte das peças, geralmente feitas com tecidos doados ou reaproveitados. Depois disso, as profissionais levam o material para suas casas, onde confeccionam os produtos.

O modelo de trabalho flexível foi pensado para se adequar às necessidades das solicitantes de refúgio. Segundo dados do Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (Pares) da Cáritas RJ, o número desses pedidos aumentou 18% no Estado durante o primeiro semestre de 2018.

A maioria mora em regiões violentas e afastadas dos centros comerciais da cidade, em favelas ou programas habitacionais do governo federal, e ainda precisa dividir seu tempo entre os empregos e os cuidados com a casa e com os filhos. “Entre as refugiadas, o grupo mais sensível é o das mães de crianças pequenas, que são maioria entre as africanas”, conta Nina Quiroga, responsável pelas relações institucionais do Pares. Muitas dessas mulheres estão sem trabalho, porque não têm com quem deixar seus filhos.

Vivendo em uma cidade com um déficit de 32 mil vagas nas creches municipais e sem uma rede de apoio de parentes e amigos que ajude com as crianças, é quase impossível para essas mulheres conseguir um emprego com carteira assinada. É o caso da congolesa Betty Mvita, de 33 anos. Mãe de três filhos, uma menina de 8 e dois meninos de 5 e 2 anos, ela chegou ao Brasil em setembro de 2015 sem o marido, que só se juntou à família recentemente, e precisou cuidar sozinha de duas crianças enquanto estava grávida da terceira.

Durante a gestação, chegou a passar por dois empregos, como faxineira em um hotel e como cuidadora de idosos, mas ambos exigiam um horário que não a permitia cuidar das crianças. No primeiro, trabalhava durante a noite e no segundo precisava dormir fora de casa de segunda a sábado.

Após o nascimento do caçula, se viu obrigada a parar de trabalhar para ficar com o recém-nascido. “Passei muito tempo atrás de um trabalho. Comecei procurando algo na costura, porque gosto muito de trabalhar com isso, mas depois passei a procurar qualquer coisa para ganhar só um pouquinho para viver com as crianças”, lembra Betty. “Mas não consegui nada até entrar para o projeto.”

A iniciativa tem dado certo. Hoje, a demanda já é maior que a capacidade de produção e novas candidatas estão passando por entrevistas para aumentar a equipe. “É preciso pensar a questão do refúgio e do acolhimento como ponto de partida para um recomeço e não como ponto final de um processo de perdas e rompimentos”, defende.

* É finalista do 13º Prêmio Santander Jovem Jornalista

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