Alternativa, mesmo sob vigilância

Programa antidrogas não tira aura libertária do câmpus da PUC

Carolina Stanisci, Especial para o Estadão.edu

15 Dezembro 2009 | 00h01

Prainha, pátio da cruz, prédio novo. Quem estudou na PUC, no bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo, não esquece esses nomes. O câmpus da Rua Monte Alegre foi inaugurado em 1946, depois da doação de um edifício por irmãs carmelitas. Daquela época, sobraram a cruz no pátio e a igreja vizinha ao prédio velho.   Os apelidos para as construções foram dados pelos alunos. O prédio velho é o doado pelas irmãs; o "novo" foi construído em 1976, para abrigar com mais conforto cursos como o de Direito. A prainha é o corredor entre os dois edifícios, ponto de encontro dos estudantes durante os intervalos. O câmpus tem ainda o núcleo da Comunicação e Filosofia, entre as Ruas Cardoso de Almeida e Monte Alegre.   Nos anos seguintes à fundação e, principalmente, durante a ditadura, o câmpus foi um centro de articulação política. "Tivemos papel decisivo na redemocratização", afirma Helio Deliberador, atual pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias. A PUC acolheu professores afastados da USP pelo regime militar, como o sociólogo Octavio Ianni.   Formado em Psicologia nos anos 70, Deliberador estava na PUC no dia da invasão da Polícia Militar, sob o comando do coronel Erasmo Dias, secretário de Segurança. Era 1977, e um ato diante do teatro da universidade, o Tuca, pedia que a União Nacional dos Estudantes deixasse a clandestinidade.       SERGIO CASTRO/AE Isabel Cleaver (à dir) e Thaís Savoia, ambas alunas da PUC, gostam de estudar na universidade: "A PUC tinha uma reputação de ser alternativa demais. Não é bem assim", considera Isabel. "Não tem cara de shopping", diz Thais.     "A gente sabia que podia haver repressão. Fui detido", diz Deliberador. Os participantes foram revistados, fichados. A então reitora, Nadir Kfouri, tentou impedir a ação da PM. "Lembro dela dizendo ao Erasmo Dias: ‘Aqui só entra quem passou no vestibular’."   Hoje, em frente do Tuca, há um jardim florido e, desde os anos 80, a liberdade de expressão passou a ser a marca registrada do lugar. Meninas de vestidos curtos e minissaias eram (e são) bem-vindas.   Às vezes, a liberdade levava os alunos a esquecer que estavam num espaço público. No ambiente "legalizado" da PUC era comum ver a galera circulando com cigarros de maconha nos corredores.   "Eu sabia que você iria me perguntar sobre isso", diz Deliberador. O pró-reitor é responsável pelo programa de prevenção ao uso de drogas lançado este ano. "O fiscal aborda o aluno, pede para apagar o cigarro de maconha e explica que é ilegal. Pergunta ao aluno o nome e o curso em que estuda. Depois, chamamos o estudante para fazer um acompanhamento socioeducativo."   Thaís Savoia Simão, de 22 anos, que está no 4º ano do curso de Psicologia da universidade, aponta um diferencial básico do câmpus da Monte Alegre. "Ele não tem cara de shopping center, como o das outras faculdades por aí. Aqui tem cara de faculdade de verdade."   Para a caloura em Relações Internacionais Isabel Angerami Cleaver, de 18 anos, a PUC foi uma surpresa agradável: "Ela tinha reputação de ser alternativa demais. Não é assim. O pessoal é legal."

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