Isabela Palhares/Estadão
Isabela Palhares/Estadão

Alfabetizar na língua materna amplia interesse

Em Uganda, crianças vão melhor na escola e até no inglês, quando aprendem antes o idioma Luganda

Isabela Palhares*, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 16h35

KABALE - No fundo da sala de aula com paredes de barro, desenhos coloridos feitos pelos alunos têm escrito ao lado o nome dos objetos em inglês, idioma oficial de Uganda, e Luganda, a língua mais falada no país do leste da África. Alfabetizar as crianças na língua materna faz parte de uma nova estratégia testada em Uganda para melhorar o desempenho acadêmico e reduzir as taxas de abandono escolar.

Apesar de ter praticamente universalizado o acesso à educação primária (dos 6 aos 12 anos), com 96% das crianças nessa faixa etária matriculadas, apenas 67% delas conseguem completar essa etapa do ensino e apenas 25% se matriculam para a educação secundária (dos 13 aos 17 anos). Além de fatores como pobreza e trabalho infantil, pesquisadores indicaram que a dificuldade na alfabetização seria um dos motivos para os alunos não conseguirem acompanhar os demais anos escolares – 31% repetem o 1.º ano no país.

A escola rural no distrito de Kabale, no sul de Uganda, é uma das 3,6 mil unidades do país que fazem parte do projeto experimental. Esse teve início em 2013, para alfabetizar as crianças em sua língua materna e só depois ensinar o inglês. Com 87 crianças entre 6 e 12 anos, a escola é um dos modelos de sucesso no país.

“Essas crianças não tinham nenhum contato com o inglês, porque seus pais não sabem o idioma já que nunca foram para a escola. Como nós iríamos ensiná-los a ler e a escrever numa língua que não conhecem? Os alunos ficavam retraídos, com vergonha por não aprender e perdiam o interesse nos estudos”, conta Monika Muhunuza, dirigente do Ministério da Educação no distrito.

Naturalidade. Nas escolas que fazem parte do programa de ensino bilíngue, as crianças no 1.º ano têm contato com o inglês por estimulação oral e começam a ser alfabetizadas na língua materna. Nos anos seguintes, o inglês é reforçado gradativamente até, que no 4.º ano, é usado exclusivamente em sala de aula. “A ideia é que aprendam brincando, o inglês é introduzido nas brincadeiras e músicas para que criem um laço afetivo também com esse idioma.”

Rehemah Nabacwa, especialista em educação infantil da USAID – ONG que formulou e capacitou professores para o programa bilíngue, com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) – explica que no início havia um receio de que as famílias teriam resistência em aceitar a alfabetização em outra língua que não fosse o inglês. “Para os pais, o principal motivo de a criança frequentar a escola é aprender o inglês, já que falar o idioma é um dos requisitos para se conseguir um emprego que não seja na agricultura. Por isso, foi muito importante envolver e explicar às famílias essa nova estratégia.”

“Levamos para as comunidades cartões com desenhos de objetos de um lado e seu nome no idioma local, do outro. Os pais se divertiam até mais que as crianças porque nunca tinham visto como era a escrita de utensílios que usavam todos os dias, como uma enxada ou uma panela”, lembra Rehemah.

A ONG monitora os resultados do programa comparando o desempenho dos alunos dessas escolas com o de unidades que mantêm a metodologia antiga. Em três anos, os dados mostraram que, ao fim do 4.º ano, 43 % daqueles que aprenderam a ler primeiro em Luganda conseguiam dominar mais de 60 palavras por minuto em inglês, enquanto apenas 16% das crianças que aprendem no método monolíngue atingem esse ritmo.

Além de lerem mais rápido, as crianças também conseguem compreender melhor o conteúdo do que estão lendo quando são alfabetizadas primeiro em sua língua materna. A pesquisa mostrou que o grupo que sofreu intervenção, no fim do 4.º ano, conseguia responder 27% das perguntas de interpretação de um texto em inglês – nas demais, só 14% conseguiam responder.

Apesar da melhora no desempenho, especialistas que atuam no país ainda estão preocupados com o baixo nível de interpretação dos estudantes. Divya Lata, especialista em desenvolvimento infantil do Unicef em Uganda, explica que as condições socioeconômicas têm forte influência no desempenho escolar.

Das 20 milhões de crianças que vivem em Uganda – 60% da população do país –, 8 milhões vivem em situação de pobreza, sendo 2 milhões delas mal nutridas, de acordo com dados de 2016 do Unicef. Além disso, estima-se que 93% das crianças que moram em áreas rurais trabalhem em comércios ou na agricultura de subsistência. “Como a pobreza ainda é muito acentuada, as crianças são prejudicadas já na primeira infância e isso atrapalha seu desenvolvimento escolar”, diz Divya.

Valorização. Monika explica que outra tarefa das escolas é envolver as famílias na educação dos filhos para que entendam a importância dos estudos na vida deles. “Convidamos os pais para vir sempre à escola e, assim, se familiarizar com o ambiente. Também cobramos uma taxa mensal de 37 mil shillings (cerca de R$ 37) ou pedimos para que doem lenha e alimentos. Assim, eles sentem que estão investindo no ensino e vão pensar duas vezes antes de tirar a criança da sala de aula.”

Outra estratégia, segundo Monika, é valorizar as conquistas escolares das crianças. No fim da aula de uma turma de 1.º ano, em uma sala com chão de terra batida e sem energia elétrica, 35 crianças se espremem em quatro bancos. Elas esperam ser chamadas pela professora para ir à frente da sala e recitar o alfabeto ou contar em inglês. Ao final, os alunos cantam e dançam ao som de uma música que diz “parabéns, você é tão legal, você é tão inteligente”.

*A repórter viajou a convite do International Center for Journalists (ICFJ)

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