Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Aulas sem ligação com carreira evitam estresse e ampliam horizonte

Cursos livres são uma espécie de oásis na agenda de muitas pessoas; para quem não consegue fazê-los antes ou após o trabalho, há programas intensivos, nas férias

Simei Morais, Especial para O Estado

27 Novembro 2015 | 03h00

O publicitário Leonardo Naressi, de 33 anos, está usando uma nova prancha no skate, de 50 centímetros, para se locomover entre a casa e o trabalho, dos Jardins a Higienópolis, na zona central de São Paulo. Ele mesmo a construiu e agora planeja fazer uma longboard, com o dobro do tamanho. Especialista em Marketing Digital, gosta de trabalhos manuais - influência do avô, que tinha oficina em casa e o ensinou consertos gerais. Já montou cama de pallets e luminárias.

Para manter as atividades sem ligação com o trabalho e aprimorar as habilidades, o publicitário faz cursos livres, como um de ourivesaria, em que forjou a aliança de ouro do próprio casamento, e outro de marcenaria, no Lab 74, para turbinar o skate. “Quero fazer um curso para construir móveis estruturados, como armários.”

Os cursos livres que não têm nada a ver com a vida profissional são uma espécie de oásis na agenda de muitas pessoas. Para quem não consegue fazê-los antes ou após o trabalho, há programas intensivos, de fins de semana. Por serem enxutos - a maioria varia de 6 a 15 horas -, são também uma opção no período de férias.

A analista contábil Karin Sako, de 27 anos, passou oito horas de um domingo em um curso de técnicas de preparo e escolha de café, no Coffee Lab. “Achei que ficaria cansada, mas estava tão contente que, ainda depois da aula, preparei café na casa de uma tia e na minha, com os métodos que aprendi.” 

A paixão dela pela bebida vem de família. Aprender mais em um curso, diz, amplia o prazer ao degustá-la. “No mundo corporativo em que vivemos, é importante ter algo que nos faça relaxar e sorrir”, diz Karin. Naressi concorda. “Gosto porque vario e não penso apenas em campanhas”, afirma. “Em julho, quando não tinha aula, foi o momento em que mais fiquei estressado no trabalho”, contrapõe o engenheiro Paulo Henrique Campos, de 26 anos, que neste ano fez curso livre de teatro no Célia Helena para se aprofundar em um hobby que começou na adolescência. 

Ócio criativo e até virada na carreira

Relaxar e ter mais conhecimento em algo de que se goste não é o único benefício de cursos sem ligação com a vida profissional, afirma Renata Fabrini, sócia-fundadora da consultoria em gestão de pessoas Plongê. “Eles estimulam o cérebro com informações que não estão no cotidiano, o que amplia o repertório. É o ócio criativo: quanto mais exposição a novidades que tirem da zona de conforto, mais se aprende a olhar para outras possibilidades.” 

Além da satisfação pessoal, essas atividades desenvolvem competências não proporcionadas pelos cursos formais, que são mais conceituais, destaca a psicóloga organizacional Myrt Cruz, coordenadora do curso de Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “A marcenaria, por exemplo, trabalha observação, ensaio e erro, resiliência e risco com ferramentas. Tem de ser comedido com as emoções para não se cortar.”

O publicitário Leonardo Naressi leva a engenhosidade dos trabalhos manuais para o trabalho, ligado à tecnologia. Já desenvolveu aplicativo para medir umidade do ambiente e informá-la pela internet e adaptou um helicóptero de brinquedo para funcionar como um drone e seguir uma rota traçada pelo computador. “Penso ainda em portas automáticas e outras aplicabilidades na internet das coisas.” 

Os cursos livres podem até indicar uma virada de carreira, ressalta Myrt. Tornar-se sommelier profissional de cervejas está no radar do técnico de sistemas Wesley Ribeiro, de 26 anos, desde que terminou curso na Academia Barbante de Cerveja, para conhecer tecnicamente o que ele já gostava. “Começou como um hobby e agora a ideia é migrar de trabalho. Esse mercado está em ascensão.”

Ter estudado um ano de teatro no Célia Helena também levantou a possibilidade de mudança de área para a aluna de Administração Thais Castro, de 21 anos, que estagia em consultoria financeira. “O curso me ajudou a não ficar nervosa e a ter habilidade com o inesperado e com pessoas. Mas gostei tanto que quero buscar um programa profissionalizante.” Por enquanto, a intenção é levar as duas atividades em paralelo para decidir mais para frente se vai optar por outra rota.

No currículo. Apesar de distintos da atividade profissional, os cursos livres podem estar no currículo. O ideal é mencioná-los como área de interesse e deixar para tocar no assunto na entrevista, aconselha Renata Fabrini, da Plongê. “Até porque o mundo ainda está se abrindo para isso, que é algo mais contemporâneo”, avalia. “Na entrevista, é possível falar sobre o que te levou à atividade.” 

A consultora é entusiasta da prática e a indica não apenas para as férias. “Recomendo o tempo todo. Essas atividades ajudam a se conhecer mais como pessoa e o que te alimenta fora do que é esperado profissionalmente.” 

Depoimento: ‘Sem sofrer cobrança, você dá o seu melhor’

Daniel de Falco, analista de investimentos

Tinha acabado de voltar da França, em novembro de 2014, quando fiz o curso de História do Cinema, à noite, depois do trabalho. Foi durante um mês, duas vezes por semana. Já gostava muito de cinema e me aproximei dos filmes franceses, apresentados por amigos. Voltei ao Brasil com interesse em conhecer mais, ver como o cinema evoluiu até agora, estudar as principais correntes, a nouvelle vague.

O curso me ajudou a aprimorar o olhar em relação aos filmes, ao contexto histórico dos diretores, suas influências e estilos de filmagem. Passei a assisti-los com olhar mais técnico e a fazer conexões com outras áreas das artes, como literatura e história.

O cinema é uma das poucas coisas que me desligam do trabalho e das responsabilidades do dia a dia. Afinar o olhar cinematográfico, portanto, me beneficiou muito. De alguma forma a nacionalidade dos diretores e os estilos dos filmes também me ajudaram, indiretamente. Se há algum estrangeiro no meu trabalho, por exemplo, posso fazer conexão com filmes de seus países, com o trabalho de diretores que os representam. O cinema me possibilita conhecer um pouco mais dos estrangeiros e do mundo.

Também tiro fotos e já fiz cursos online gratuitos, mas tenho interesse em estudar fotografia artística. É muito bom participar desses cursos. Não tem nada melhor do que aprender algo sem ter obrigação de entregar resultado. Sem sofrer cobrança, você dá o seu melhor. 

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