Werther Santana / AE
Werther Santana / AE

Agora vai, FAU?

Com problemas estruturais em sua sede, a Faculdade de Arquitetura da USP levou 2 anos para aprovar um plano diretor para a reforma do prédio

Felipe Mortara - O Estado de S. Paulo

26 Julho 2011 | 00h00

Goteiras que parecem cascatas, pedaços do teto prestes a cair, um estúdio interditado. Pelo menos desde 2008 qualquer visitante percebe que a saúde do prédio da Faculdade de Arquitetura da USP vai mal. A reforma necessária é tão ampla que ganhou agora até um plano diretor, no qual foram incorporadas sugestões dos estudantes da FAU. Os futuros arquitetos usaram a situação precária do edifício mais arrojado da Cidade Universitária como objeto de estudo.

Alunos, professores e funcionários votaram o plano no começo de junho, depois de dois anos de discussões. O debate durou quase tanto quanto os três anos necessários para construir o prédio de concreto exposto, criado pelo arquiteto Vilanova Artigas em 1969.

O processo foi demorado, mas Guido Otero, de 24 anos, do 6.º ano do curso, adorou participar. “Enxergamos formas de tornar mais democrática a estrutura da universidade, que é muito engessada”, diz. “Pode ser ilusão, mas sinto que estamos agindo. Foi uma alternativa empolgante.”

“O maior desafio é recuperar a estrutura, e esse plano é fundamental para a escola”, diz Marcelo Romero, diretor da FAU. “Muitos diretores fizeram obras nos pontos mais críticos, mas chega uma hora em que é preciso arrumar de vez.”

A obra mais urgente na unidade está em fase de licitação. É a reforma da cobertura do prédio, que em 50 anos nunca passou por uma intervenção completa. “Por ser de concreto exposto, demanda cuidados muito especiais”, afirma Romero.

O custo dessa obra é de R$ 6 milhões e a entrega está prevista para 2013. Mas o plano vale para futuras modificações no prédio até 2018.

Greve

O irônico é que a sede da mais importante faculdade de Arquitetura do País ficou com a estrutura comprometida justamente pela falta de obras regulares. “Estudamos construção, edificação e restauração num prédio caindo aos pedaços”, resume Luiz Novaes, de 22, aluno do 4.º ano.

A dificuldade de reformar a FAU vinha da falta de consenso na própria comunidade acadêmica. Tombado, o prédio passou por reformas nos jardins e na tubulação de colunas, em 2009. Insatisfeitos, alunos e professores entraram em greve. O motivo? Não julgavam as intervenções prioritárias.

Para Douglas Hernandes, de 21, estudante do 4.º ano, os reparos até eram realizados, mas sem discussão prévia. “Quando queriam fazer, faziam. Mas tinham medo quando uma reforma começava, porque não consultavam os alunos.”

Ao final da greve, foram eleitos representantes de um conselho curador, órgão consultivo com 21 membros – alunos, professores e funcionários. Eles foram encarregados de criar um processo com a participação dos colegas da faculdade para estabelecer metas, regras e novas políticas de manutenção do edifício.

A discussão ganhou os corredores da FAU. O projeto aprovado, não por acaso, é um Plano Diretor Participativo. Ao todo, a unidade fez 15 oficinas, com visitas para conhecer o potencial de cada espaço da construção de seis pavimentos, ligados por amplas rampas. Grupos de trabalho mergulharam em análises técnicas e na história do prédio. “Tivemos uma adesão maciça, que foi completamente acima das expectativas”, afirma Raquel Rolnik, professora de Planejamento Urbano.

A versão final do plano foi aprovada após um longo debate com mais de 500 pessoas no saguão central, batizado de Caramelo, por causa da cor do piso. Como muitos membros da congregação participaram da decisão, a próxima reunião do órgão máximo da FAU, no mês que vem, deve legitimar formalmente a iniciativa.

Único aluno a presidir um conselho curador em toda a universidade, Fernando Túlio Franco, de 24 anos, acredita que o desafio de mobilizar a comunidade acadêmica foi bem-sucedido. “Queríamos um processo que respeitasse a dimensão histórica, capaz de romper com a inércia estabelecida na forma de intervir nos espaços da faculdade. Conseguiu superar todas as expectativas. Mostrou-se um meio de discussão e decisão legítimo.”

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