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Aflições e ensino superior

Conversei, há algumas semanas, com uma garota que cursa o ensino médio e ouvi suas preocupações a respeito dos estudos

Rosely Sayão, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2020 | 16h33

Conversei, há algumas semanas, com uma garota que cursa o ensino médio e ouvi suas preocupações a respeito dos estudos. Não, ela não está nem um pouco preocupada com o chamado “ano perdido” por causa da pandemia. Em dois anos, fará os exames necessários para ingressar em um curso universitário. E aí é que estão localizadas as aflições dela.

Até há pouco tempo, quem estava prestes a fazer vestibular e lidava com a tarefa de escolher o curso que gostaria de fazer enfrentava uma grande dificuldade: a quantidade enorme de cursos disponíveis. Quanto maior a oferta, mais difícil o processo porque, ao escolher um curso, é preciso renunciar a muitos outros. E a renúncia é a parte mais dolorosa e difícil da escolha.

Muitos jovens ainda enfrentam essa questão, mas a garota com quem conversei trouxe questões bem mais complexas. “Quando eu penso nessas profissões mais conhecidas e procuradas, sinto que estou no passado”, disse. Muito inteligente e atenta às inovações que ocorrem no mundo em todas as áreas, ela percebeu que transformações importantes estão prestes a ocorrer no mundo do trabalho.

A inteligência artificial, por exemplo, mudará drasticamente nos próximos anos – num futuro próximo, portanto – o exercício de diversas profissões que conhecemos muito bem no presente. Se você está curioso, pode consultar https://lamfo.unb.br/automation-jobs/ que calcula a probabilidade de automação de centenas de profissões e também de trabalhos sem formação universitária.

Gustavo Hoffmann, especialista em ensino superior, afirma que: “é provável que 80% dos empregos que existirão daqui a 10 anos não existem”. 

“Hoje, mais de 50% dos alunos formados no ensino superior exercem profissões diferentes daquelas para as quais foram formados. Mesmo as profissões tradicionais como Engenharia, Medicina e Direito não serão as mesmas. Por exemplo, estima-se que 76% das atuais atribuições de um advogado sejam substituídas por inteligência artificial nos próximos seis ou sete anos. Ou 79% do que hoje faz um engenheiro civil ou ainda 56% do que hoje faz um médico.”

Como você pode perceber, leitor, os jovens precisam agora pensar “fora da caixa”, como eles dizem. O que levar em conta? Em primeiro lugar, é muito importante o autoconhecimento. Quem se conhece bem pode evitar as armadilhas do autoengano e as consequências que podem vir daí, como por exemplo, a criação de situações que não têm relação com a realidade. 

Já conversei com um jovem que cursou Direito porque acreditava gostar desse tipo de trabalho, até o dia em que descobriu que gostava mesmo é de ver o entusiasmo do pai no exercício da advocacia. Quem se conhece também sabe mais a respeito de suas limitações, de seu potencial, de seus interesses, de suas habilidades e afinidades, o que facilita muito a escolha de caminhos a seguir.

E vou deixar a conclusão deste texto com o especialista Gustavo Hoffmann. “Neste mundo VUCA (vulnerável, incerto, complexo e ambíguo), mais importante do que escolher uma profissão de sucesso, é escolher uma formação de sucesso. Uma boa formação valoriza cada vez menos as competências técnicas e cada vez mais o desenvolvimento de competências socioemocionais, que serão fundamentais para qualquer profissão. Pensamento crítico, liderança, criatividade, empatia, comunicação e capacidade de resolução de problemas são apenas alguns exemplos de competências fundamentais para o exercício de qualquer profissão, que extrapolam as competências técnicas e dificilmente serão substituídas por inteligência artificial.”

É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLÁ

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