Adiamento é vergonha para universidade, dizem professores

Docentes foram hostilizados por manifestantes na entrada da reitoria

11 Novembro 2009 | 13h50

O cancelamento da eleição para reitor da USP na terça-feira e a transferência da votação para fora do câmpus demonstram a incapacidade da reitora Suely Vilela de lidar com os conflitos que cresceram na instituição, criando uma situação embaraçosa para a universidade, avaliam professores da USP ouvidos pelo Estado.   "É uma vergonha", afirma o professor do Instituto de Matemática e Estatística Sérgio Oliva. "É vergonhoso que poucas pessoas que não fazem parte da comunidade façam a universidade se subjugar assim."   Celso de Barros Gomes, professor titular do Instituto de Geociências, também destaca o fato de pessoas sem vínculo com a universidade terem impedido a eleição. "A situação foi criada por pessoas totalmente desvinculadas da universidade, recrutadas pelo sindicato para ficarem na porta da reitoria", afirma.   Para ele, medidas mais efetivas deveriam ter sido adotadas pela reitora. "É mais um episódio de uma história que está se repetindo nesta última gestão e demonstra que as coisas não foram equacionadas", analisa.   Na opinião de Elisabeth Balbachevsky, do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP (Nupp), a universidade não consegue lidar com um movimento sem representatividade. "É uma minoria fascista. É lamentável que a universidade não tenha condições de fazer frente a este tipo de coisa", afirma a pesquisadora.    Questionado sobre o episódio na USP, o governador José Serra afirmou que as manifestações "ultimamente têm diminuído muito". "Mas há um processo democrático na USP de escolha de uma lista tríplice e esse processo tem de ser respeitado. Nem todo mundo gosta de fazer isso", completou. O resultado da eleição será levado ao governador e é ele quem escolhe, entre os três mais votados, o novo reitor da USP.   Uso da Força Para José Álvaro Moisés, diretor do Nupp, a falta de diálogo está no cerne dos problemas. "Há uma politização e ideologização equivocadas e a falta de debate faz com que se enverede pelo uso da força", avalia Moisés.   Na terça-feira, em umas das entradas do prédio da reitoria, onde seria realizada a votação, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto bloquearam a passagem de professores com gritos de "aqui só entra trabalhador, de terno não". Houve empurra-empurra. O professor Hans Viertler, do Instituto de Química, foi um dos impedidos de entrar. "Onde está a democracia?", questionou. A pró-reitora e cientista Mayanna Zatz também foi impedida de entrar e hostilizada. Ana Lúcia Pastore, professora da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, discutiu com estudantes, chamou manifestantes de "idiotas" e foi xingada de "hipócrita".   Do lado de dentro da reitoria, rojões lançados pelos manifestantes interrompiam as conversas dos professores. O clima era de impaciência. Os três candidatos com maior votação no primeiro turno - Glaucius Oliva (Diretor do Instituto de Física de São Carlos), João Grandino Rodas (diretor da Faculdade de Direto) e Armando Corbani (pró-reitor de pós-graduação) - conseguiram entrar. Os candidatos Sylvio Sawaya (da Arquitetura) e Sonia Penin (da Educação) foram impedidos de entrar pelos manifestantes.   "O que aconteceu é um retrato da USP atual", afirmou Rodas, logo depois que a reitora anunciou o adiamento da eleições. "Quem garante que em 24 horas todos serão avisados?" Para Oliva, eleitores que vieram dos câmpus do interior poderiam não ficar para a votação de hoje. Como sua base de apoio vem justamente dessas unidades, o candidato ajudou pessoalmente a encontrar hotéis na cidade para que as pessoas pudessem passar a noite.   Docentes da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba, voltaram para o interior, mas disseram que retornariam. Corbani atribuiu a manifestação a um grupo pequeno, mas com grande capacidade de intimidação. O diretor da Faculdade de Medicina, Marcos Boulos, acha que o processo eleitoral atual é retrógrado e considera as manifestações legítimas. "Mas poderia ser feito de um modo mais produtivo."   A movimentação começou às 10 horas, quando houve uma assembleia do sindicato. A decisão de impedir a entrada dos eleitores já havia sido tomada há dias. Ontem, os manifestantes resolveram também que tentariam novamente hoje impedir a eleição. Para tentar desmobilizar os manifestantes, a reitora Suely só divulgou o novo local no início da noite.

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