Adiamento do Enem: crônica de um governo

Ministro da Educação fez do Enem sua trincheira na disputa entre o presidente e os governadores. Além disso, declarar a decisão no dia em que haveria a votação na Câmara dos Deputados também mostra uma clara provocação ao Legislativo

Priscila Cruz*, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2020 | 05h00

O enredo que envolve o adiamento do Enem apresenta elementos característicos desse governo: a constante disputa com aqueles que consideram inimigos, a gestão pautada por escolhas ideológicas e a completa falta de capacidade técnica para colocar em prática políticas bem desenhadas e implementadas. De certa forma, os dois primeiros constituem o diversionismo para esconder o terceiro, mas também são a expressão mais forte dos propósitos das lideranças atuais dessa gestão.

Não resta dúvidas que a escolha técnica mais adequada – já muito debatida e exposta em vários meios de comunicação – é o adiamento da realização das provas do Enem. A insistência em manter o calendário, até que a pressão pela alteração tivesse efeito, pode ser explicada por esses três fatores.

Primeiro: o ministro da Educação, seguindo a determinação do próprio chefe do Executivo de adesão ao discurso de afrouxamento do isolamento social e de confronto com os governos estaduais, fez do Enem sua trincheira na disputa entre o presidente da República e os governadores. Além disso, declarar a decisão no dia em que haveria a votação na Câmara dos Deputados também mostra uma clara provocação ao Legislativo.

Segundo: em sua crença, defesa e implementação de uma agenda baseada em ideologia, em vez de evidências e escolhas técnicas, o ministro defendeu a manutenção do calendário, apesar da profunda desigualdade de condições dos jovens brasileiros para manter os estudos na pandemia, afirmando, inclusive, que não era papel do exame corrigir desigualdades sociais. Essa é a concepção de mundo e de educação revelada pelas palavras e ações do servidor público de plantão no Ministério da Educação hoje: um entendimento torto de meritocracia e das responsabilidades da gestão pública educacional.

Terceiro: realizar a alteração do calendário exige uma capacidade mínima de gestão, articulação e trabalho, que sabemos não fazer parte do descritivo do atual ministro e sua equipe mais próxima. Lá no fundo, o ministro sabe que lhe falta habilidade para montar e percorrer esse novo percurso, que envolve novos desenhos, arranjos e acordos.

E assim o Enem, porta de entrada de muitos jovens para oportunidades que farão imensa diferença em suas vidas, transformou-se nessa história de suspense, apreensão e medo. 

A gestão pública federal, que deveria focar em resolver a profunda crise gerada pela pandemia na educação básica, lavou as mãos, jogou a responsabilidade para os governos subnacionais e aproveitou o tema para criar mais uma frente de confusão e poucos resultados.

* CO-FUNDADORA E PRESIDENTE EXECUTIVA DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

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