Acusado de ofender o negro, livro didático é proibido em Brasília

O livro Banzo, Tronco e Senzala está proibido na rede pública do Distrito Federal por ordem do governador Joaquim Roriz, que acatou pedido do senador Paulo Paim (PT-RS). "Este livro trata a comunidade negra como macacos ou mortos-vivos", protestou Paim, ao mostrar a Roriz um exemplar da obra escrita por Elzi Nascimento e Elzita Melo Quinta, publicado pela editora Harbra e com ilustrações de Negreiros.O senador recebeu de um pai denúncia contra o livro. O garoto, negro, de 10 anos, avisou em casa que não voltaria mais para a escola porque o livro estudado em sala de aula, segundo ele, mostrava que os seus antepassados eram traidores e macacos. Ele se sentiu humilhado. "Qual é a auto-estima de uma criança negra quando recebe um livro que diz que, se seu povo um dia foi escravo, os culpados foram os negros, e não os europeus da época, mercadores de escravos?" - questiona Paim.O garoto ficou impressionado com as informações contidas no livro dizendo que os "negros africanos perdiam a condição humana assim que eram aprisionados na África para se tornarem simples mercadoria à disposição dos brancos" e que aprisionar os negros não era difícil. "Principalmente, depois que os traficantes passaram a contar com o auxílio de negros traidores que prendiam elementos de sua própria raça em troca de fumo, cachaça, pólvora e armas." Paim afirma que o livro omite que a política econômica da época era calcaca na filosofia européia de escravidão dos negros. "Trata-se de um livro preconceituoso, racista e que fere a auto-estima da comunidade negra, no momento em que, há uma cruzada nacional, com repercussão em nível internacional, na luta contra o preconceito e contra o racismo", reclamou Paim.O governador concordou que "a obra referia-se aos negros de forma pejorativa e preconceituosa", mandou recolher os exemplares e recomendou também às escolas particulares que não adotassem o material didático. A obra não consta da lista de livros didáticos indicados pelo MEC e nem da Secretaria de Educação do Distrito Federal, mas os professores têm autonomia para utilizar diversos livros. Segundo a secretária Maristela de Melo, o livro vinha sendo utilizado em quatro escolas privadas. Assim que recebeu a informação do senador, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, mandou comprar o livro e ficou chocado. "O texto, sinceramente, não é grande coisa, mas não incomoda. O que chama a atenção são as gravuras, que põem os negros como macacos, ridicularizam o ser humano", comentou o ministro. Por ironia, o autor das ilustrações que estão no centro da polêmica - mais do que o texto - tem o mesmo nome dos navios que transportavam oes escravos da África para o Brasil. Na semana passada, o senador Paim conversou também com as autoras e contou que elas reconheceram que o "livro era um equívoco". Mas ontem a gerente editorial da Harbra, Maria Pia Casglia, garantiu que "está havendo um mal-entendido enorme". Ela comentou que a obra circula há quatro anos no mercado e nunca recebeu críticas. Por enquanto, a obra deixará de ser comercializada no País. A editora pediu pareceres de "especialistas isentos" para analisar se realmente é necessário reformular o livro. O senador apresentará projeto de lei exigindo que os livros didáticos passem por um exame de qualidade, uma espécie de "Inmetro da educação", como existe para outros produtos. "Se a carne tem selo de qualidade e até hotéis têm estrelas, como é que o livro, que é o coração da nossa formação, ou da deformação, não tem nenhum tipo de controle?"

Agencia Estado,

10 de março de 2003 | 19h00

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