Acordo ortográfico divide opiniões de especialistas

De um lado, os que acreditam que a reforma dará peso à língua; de outro, o respeito às diferenças culturais

Giovanna Montemurro, do estadao.com.br,

16 de maio de 2008 | 20h53

O Parlamento português aprovou nesta sexta-feira, 16, depois de 18 anos da assinatura, o acordo ortográfico que vai unificar a gramática de todos os países lusófonos do mundo (além de Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste). Com Portugal, já são quatro os países ratificaram o acordo - Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe -; um grande avanço, uma vez que o país era o mais reticente a respeito das novas normas.  Veja também: O que muda com a unificação ortográfica entre países lusófonos Parlamento português aprova novo acordo ortográficoAcordo ortográfico deve entrar em vigor no Brasil em 2009 "Alguns países entenderam que as novas normas seriam ruins para suas identidades nacionais, por isso a demora na ratificação", disse a professora Stella Maris Bortoni-Ricardo, lingüista e membro da Comissão de Língua Portuguesa (COLIP) no ministério da Educação (MEC), que, juntamente com o ministério das Relações Exteriores e da Cultura, lidou com a questão da reforma ortográfica no Brasil. "Mas é importante lembrar que a questão não é a liderança de qualquer um dos países na imposição de regras, mas uma postura de colaboração", disse a Stella, lembrando o fato de muitos portugueses acreditarem que o acordo foi uma imposição de regras brasileiras, devido fato de o País ter a maioria dos falantes da língua (segundo a professor, de cada três pessoas que falam português, uma é brasileira). Essa colaboração é de extrema importância se os países lusófonos quiserem que a Língua Portuguesa ganhe destaque mundial, acrescentou a professora. Atualmente, a sétima língua mais falada do mundo ainda não conseguiu entrar para o rol das línguas oficiais de órgãos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU). Isso por que, todos os documentos publicados em português têm que ser disponibilizados em duas vias: português brasileiro e português de Portugal. "Essa é uma medida de política de idioma que, além de dar importância para a Língua Portuguesa, facilitaria a difusão e troca de publicações entre países lusófonos, favorecendo, inclusive, os países mais pobres, no recebimento de reforço de material didático", disse Stella. "Essa reforma é de extrema importância porque é a primeira feita pela Comunidade dos países de Língua Portuguesa (COLP) em conjunto, e não individualmente", acrescentou.  Quanto à adaptação às mudanças, a professora acredita que será feita de maneira fácil, pois o acordo muda menos de 1% do percentual falado da língua. Ela ressaltou, ainda, o papel da mídia na difusão das novas normas de ortografia.  Vale lembrar que Portugal estabeleceu um prazo de seis anos para esse processo, enquanto o Brasil optou pela metade. Isso quer dizer que, se entrar em vigor a partir de janeiro de 2009, as escolas brasileiras terão até 2011 para cobrarem as mudanças. "Com os professores brasileiros nas condições em que estão - mal pagos, mal formados -, essa mudança pode gerar alguma dificuldade de adaptação." É o que acredita a professora Eleonora Cavalcante Albano da Unicamp. "Essa mudança vai fazer muito pouca diferença na facilidade de comunicação entre países", acrescentou. Diferenças Como fica claro, não foi só em Portugal que o novo acordo dividiu opiniões. Segundo Sírio Possenti, professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, do ponto de vista lingüístico e da educação, a preocupação com a unificação de regras gramaticais é "uma bobagem absoluta." "O valor dessa mudança é muito mais simbólico que prático. Na prática, não são necessárias leis que normatizem a gramática e a ortografia", disse.  Segundo o professor, é mais importante garantir que alguém entenda textos e saiba relacioná-los do que tenha uma ortografia perfeita. "Variações de ortografia mudam muito pouco a compreensão de um texto, escrever diferente não é um problema lingüístico em nenhum país", acrescentou o professor.  É o que pensa também a professora de lingüística da Unicamp Maria Irma Hadler Coudry que, embora ache interessante que os países lusófonos comunguem de uma familiaridade, acredita que cada um tem sua especificidade cultural. "Não é preciso que se escreva exatamente igual para que haja entendimento mútuo e não é porque se estabeleceu uma regra comum que se falará perfeitamente igual em todos os países."  Segundo Maria Irma, do ponto de vista político, essa é uma má política lingüística. "É importante respeitar as diferenças no modo como as pessoas falam."

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