Ação afirmativa funcionou nos EUA, diz advogado americano

A história da discriminação contra os negros no Brasil e nos EUA é distinta, mas as soluções adotadas pelos americanos podem ter reflexos aqui. É o que diz o advogado americano John Payton, que representou a Universidade de Michigan na Suprema Corte e conseguiu recentemente um veredicto favorável às ações afirmativas para estudantes negros no país."Brasil e EUA têm várias circunstâncias distintas, mas o fato de as ações afirmativas terem dado certo lá terá algum reflexo aqui", diz Payton. Ele se reuniu na segunda-feira com o secretário de Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo, Kjeld Jakobsen, após uma semana de encontros no Rio e em Brasília, com reitores, parlamentares e ministros, discutindo cotas para negros e as experiências dos EUA e do Brasil."Há 30 anos, antes das ações afirmativas, tínhamos 2% ou 3% de afro-americanos nas principais universidades do país. E agora há cerca de 18%", disse ele ao Estado. Com isso, afirma Payton, a representação dos negros em instituições como governo, empresas e no meio acadêmico aumentou.Sociedade refletidaNos EUA, a população afro-americana é de 13%. No Brasil beira os 50%. Mas aqui, entre 1% e 2% dos afrodescendentes chegam ao ensino superior. Para o advogado, a política de cotas têm um grande impacto. "A sociedade deveria estar refletida nas instituições que cria. Esse é o objetivo se estivermos falando de democracia."Assim como aqui, disse Payton, nos EUA a adoção de cotas também provocou muitas contestações por parte de alunos brancos. "Enfrentamos esses problemas e vamos continuar enfrentando, mas depois de anos de ações afirmativas nas escolas, ninguém, nem mesmo os que eram contrários, nega que o ensino melhorou com a integração."Payton veio ao Brasil com um grupo de advogados e militantes do movimento negro que integram o International Human Rights Law Group, entidade que presta aconselhamento jurídico sobre temas ligados a direitos humanos e sobre ações afirmativas.Menor desigualdadePara Gay McDougall, diretora-executiva do grupo, as três décadas de ações afirmativas reduziram bastante as desigualdades entre negros e brancos em seu país.Mas o Brasil precisaria esperar o mesmo tempo para reverter as suas desigualdades? "Se investirmos nisso, mudamos essa realidade em 30 ou 40 anos. Pouco, considerando que esse quadro está imóvel há tanto tempo", diz Sueli Carneiro, diretora da organização não-governamental Geledés, uma das entidades que integra um grupo formado pelo Law Group para estimular as ações afirmativas na América Latina.

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