A vida bem concreta dos cientistas

Há décadas o cinema se encarrega de mostrar cientistas como seres bem próximos da loucura, empenhados em dominar o mundo, criar monstrengos só para provar que podem desafiar Deus, indo em busca do ?conhecimento proibido?, mesmo que ele ponha em risco a sobrevivência da humanidade e do próprio planeta.A realidade, porém, é bem diferente, por mais estranho que possam parecer os objetos de estudo de certos cientistas.Primeiro, porque ciência não é uma atividade solitária, em que o sujeito se tranca no laboratório e depois de anos tem um lampejo de genialidade e faz uma descoberta fantástica. Avanços em pesquisa dependem, e muito, do contato com outros profissionais, de troca de idéias e, principalmente, de colaboração. Nenhum estudo publicado semanalmente na Nature, Science, Cell, Physics e dezenas de outras tem um só autor, mas vários, são equipes de trabalho.Segundo, nenhum cientista consegue financiar suas pesquisas se não conhecer bem a política científica de seu país, as instituições que liberam recursos e como obtê-los. Significa lidar com coisas prosaicas e mundanas como dinheiro, compras, estoques, gastos com pessoal.Terceiro, a despeito do que mostra o cinema, são pessoas absolutamente normais, com problemas com filhos adolescentes, que gostam de sair para jantar e pegar um cinema, curtem rock e futebol.O perigo de tomar o estereótipo pela realidade, é claro, é desmerecer inovações e pareceres científicos. Ou então de não entender por que é importante e fundamental investir pesado em desenvolvimento científico. Afinal, em vez de gastar milhões de dólares no seqüenciamento do genoma do rato, não seria melhor investir em métodos de exterminá-lo?Muitos dedicam a vida inteira a estudar coisas que nos parecem completamente inúteis e exóticas, fora mesmo da realidade, como os físicos da teoria das supercordas, às voltas com um universo de dez dimensões espaciais e uma temporal, ou os biólogos que se dedicam a esmiuçar o desenvolvimento embrionário de moscas.Mas, talvez, quem esteja meio fora da realidade seja a gente mesmo, que bocejava nas aulas de química e física e fazia de tudo para matar as de biologia e hoje se vê num mundo invadido pelas novidades da ciência. Só pode mesmo ser culpa desses cientistas malucos. leia também Cientistas não querem imagem de gênios malucos Estereótipo é praticamente universal

Agencia Estado,

05 de abril de 2004 | 15h13

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