A verdade sobre o Pai da Aviação

Nos Estados Unidos, gente da Carolina do Norte acha que, graças a Kitty Hawk, seu Estado é o Berço da Aviação; os de Ohio insistem que, como os irmãos Wright nasceram lá, Dayton foi onde se inventou o avião. Na Inglaterra, a pequena cidade de Chard se proclama o berço do vôo motorizado, graças a John Stringfellow, que fez uma engenhoca com motor a vapor percorrer uns três metros no ar. A França considera seus irmãos Montgolfier, que viveram um século antes, os criadores do vôo ?como um conceito?.Pois Paul Hoffman conta em Wings of Madness que o verdadeiro pai da aviação é Alberto Santos Dumont, um elegante, diminuto, excêntrico, ranzinza, rico e exibido filho de um cafeicultor de Minas Gerais que construiu máquinas mais leves e também mais pesadas que o ar, movidas a gasolina, na aurora do século passado, e as pilotou com pompa e destreza sobre Paris e meio mundo além, enquanto os Wright ainda tentavam vender sua invenção ao Departamento de Guerra.Segundo Hoffman, Santos Dumont era um homem como poucos. Tornou-se fascinado com a idéia de voar quase a partir do momento em que chegou a Paris, em 1891, aos 18 anos. Munido de meio milhão de dólares em dinheiro de herança (seu pai lhe havia adiantado a quantia, provocando-o: ?Vamos ver se você se torna um homem?), ele comprou carros motorizados, teve aulas de ciência e se transformou num dedicado tecnófilo.Passeando pelos céusAté que um dia leu um livro sobre uma fracassada expedição ao Pólo Norte num balão. Empolgado pela foto da capa, ele planejou seu primeiro vôo, em 1897, inspirado nos dois parisienses que haviam construído a malfadada aeronave polar. A experiência o mudou para sempre: em semanas, ele começou a construir seus próprios balões.Montou um pequeno motor de triciclo e uma grande hélice num deles, decolou e ficou perambulando acima das nuvens. E a partir de então fez carreira passeando ruidosamente pelos céus de Paris, para o deleite e o assombro das multidões lá embaixo. Estava sempre experimentando, mudando a forma dos balões cheios de hidrogênio, modificando o tamanho dos motores que eternamente falhavam e brincando com o desenho do cesto.ManiasAs histórias que Hoffman conta do corajoso balonismo de Santos Dumont e de seus experimentos posteriores com máquinas mais pesadas que o ar são um deleite em si mesmas (seu vôo de 1906 no 14-bis, que a imprensa apelidou de Ave de Rapina, ainda é considerado por seus defensores mais devotos o primeiro vôo motorizado testemunhado da História). Também são saborosos os detalhes sobre seu estilo e suas manias.No fim, Dumont mostrou-se uma figura trágica: ficou doente e deprimido com o rápido sucesso de relações públicas dos irmãos Wright e chocado ao saber do uso de sua invenção na Primeira Grande Guerra. Morreu em 1932, aos 59 anos, sob circunstâncias curiosas que Hoffman revela integralmente pela primeira vez.

Agencia Estado,

13 de agosto de 2003 | 11h10

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