A Universidade que não se apaga

Marco Antonio Nogueira * Com o desaparecimento do professor Octavio Ianni, aos 77 anos, no último dia 4 de abril, foi-se um importante pedaço da melhor tradição universitária brasileira.Ianni não foi apenas um de nossos mais importantes cientistas sociais. Foi uma referência ética e intelectual, um expoente da ?escola paulista de sociologia? que alçou vôo próprio e construiu uma carreira aparentemente solitária, avessa a badalações, a disputas por cargos, a holofotes e picuinhas.Autor de dezenas de livros, de centenas de artigos, alguns dos quais responsáveis pela abertura de verdadeiras sendas de investigação (como é o caso de Metamorfoses do Escravo, de 1962, e O Colapso do Populismo no Brasil, de 1968), jamais abandonou as salas de aula e o contato quente com seus alunos. Não se refugiou em nenhuma especialização estrita nem muito menos em programas de pesquisa pontuais, abertos somente aos que se julgassem "tecnicamente qualificados".Desenvolveu uma agenda de trabalho panorâmica e diversificada, pontuada de interesse pela questão racial, pelo desenvolvimento, pela industrialização, pela formação do Estado nacional, pela globalização.Sua atitude confundia-se com a de um ímã, dedicado a magnetizar e criar campos de força. Era mestre em buscar aproximações com os jovens pesquisadores, em incentivá-los, orientá-los, provocá-los. Criou assim não um séquito ou uma escola, coisas que lhe causavam profunda repugnância, mas um mar de admiradores, pessoas de distinta orientação política e ideológica, dentro e fora do Brasil.Todos o viam como um amigo, um irmão mais velho, um companheiro. Bobbio poderia dizer dele, citando Mazzantini: eis aqui um homem sereno, capaz de usar sua potência para ?deixar o outro ser aquilo que é?.Ianni era o contrário da arrogância e da insolência. Chegava ao cúmulo de se recusar a falar de sua própria obra. Era refratário a qualquer tipo de ostentação. Mas de modo nenhum foi submisso: refutou o ?destrutivo confronto da vida? por senso de aversão e por falta de vaidade, mas jamais renunciou à luta, ao embate ideológico, ao contraste científico.Ianni foi um homem de esquerda, um marxista flexível e plural, inteiramente disposto ao diálogo, à troca de idéias, à polêmica. Como intelectual público que sempre foi, soube, como poucos, combinar o rigor metodológico e a aridez das construções teóricas com um incansável empenho em levar idéias para o grande público.Jamais deixou de atentar para a face surpreendente da vida, a renovação das estruturas, a dinâmica subversiva dos processos. Em sua última década, dedicou-se a decodificar a globalização, os ?enigmas da modernidade-mundo?, título de um de seus mais instigantes livros deste período. Pôs-se a refletir sobre os efeitos das novas tecnologias, o tempo real, as inovações culturais, as novas formas sociais, com o intuito de entender o conjunto das modificações por que passa o capitalismo contemporâneo.Além de despertar a justa homenagem e nos convidar a rever as vicissitudes da vida intelectual do País, o desaparecimento de figuras emblemáticas como Ianni também nos ajuda a pensar na universidade realmente existente. Como toda instituição social, a universidade é sempre uma mescla de continuidade e renovação, de tradição e projeto.Por intermédio de seus ?grandes?, ela se reencontra com seu passado, com sua história e com sua identidade. Com eles e por meio deles aprende a mudar sem perder o rumo, sem se descaracterizar ou trair a si própria.Emparedada entre processos fortes de corrosão de identidades, de desconstrução organizacional, de obstinação pela ?produtividade? e de competição cega por verbas, patrocínios e financiamentos, a universidade atual depende como nunca de suas reservas internas e, por extensão, de sua memória.Será com elas que reunirá forças para se recolocar no cenário e se viabilizar como organização autônoma e consciente de sua missão. Será com elas, digamos assim, que poderá experimentar uma auto-reforma que não se confunda com a repercussão passiva das expectativas erráticas dos governos.Por várias décadas, Ianni manteve-se serenamente firme em seu posto de combate e observação. Fez dele uma razão de viver, uma plataforma de convivência e reflexão. Fortaleceu e ajudou a atualizar toda uma tradição. Foi um intelectual de seu tempo, ligado em tudo, inquieto.Um pessimista da razão, um otimista da vontade. Seu exemplo é a melhor prova de que a universidade é uma chama difícil de apagar.* Professor de Teoria Política na Unesp, Campus de Araraquara - e-mail m.a.nogueira@globo.com

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