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A triste ‘nova escola’

Vai ser uma escola cheia de “não pode”, em que um espirro deixa todo mundo nervoso

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2020 | 05h00

É triste pensar na escola que crianças e professores viverão na volta às aulas, independentemente de quando isso acontecer. Foi chocante ver fotos de alunos de cerca de 5 anos em Manaus, separados por placas de acrílico dos colegas enquanto faziam um trabalho, em tese, conjunto, na primeira cidade a retornar a educação presencial no Brasil. Marcas no chão indicando o caminho para chegar ao pátio, máscaras que não permitem ver o sorriso da professora e a tensão constante para se lavar as mãos a cada segundo. Tudo isso não se parece nada com escola.

Nas últimas décadas, felizmente, o ensino de crianças e adolescentes foi se tornando sinônimo de compartilhar, de experimentar livremente, de aprender com afeto. Se não tivéssemos Jair Bolsonaro e seu grupo que ninguém sabe de onde saiu, seria raro nos dias de hoje se ouvir falar em escolas com regime militar, disciplina rígida, cabelo e unhas impecáveis como víamos no tempo em que a punição era ajoelhar no milho.

Países como Finlândia, Estônia, Austrália ganharam o topo dos rankings internacionais de educação e mostraram que aprender é criar e não estar preso a toneladas de lições de casa. Que a maneira instigante de ensinar e não apenas o conteúdo fazem do estudante um aprendiz exemplar.

Há pouco tempo, emocionei-me ao ouvir o podcast The Daily, feito pelo The New York Times, com o relato de uma professora americana que voltava à sua sala de aula vazia. Ela precisava buscar os materiais das crianças porque sabia que não mais retornariam, já que o ano letivo acabara em casa por causa da pandemia. A professora chorava e dizia que não conseguia imaginar como proporia atividades sem que as crianças pudessem sentar juntas no chão, lado a lado. Ou que seus alunos, que ainda começavam a aprender a beleza de dividir e partilhar com os colegas, tivessem que ser impedidos de emprestar lápis de cor e canetinhas. Precisassem sentar em marcas em X no chão, sem poder se mover quando quisessem. Devastada, a docente afirma que pensa em abandonar a profissão. 

Nos Estados Unidos, o debate sobre como será essa nova escola é imenso. Há cidades investindo muito dinheiro em carteiras únicas, com proteção acrílica, transporte escolar sendo redesenhado, entre outras coisas. Educadores acreditam que este é o maior desafio das suas carreiras, já que o que se buscou como excelência nos últimos anos foi o contrário: poucas aulas expositivas e muito trabalho colaborativo. 

Lá e cá professores se questionam como ensinar as habilidades socioemocionais, tão reconhecidas hoje em dia. Como aprender a trabalhar em grupo e ter empatia, com tanto distanciamento? Como ter iniciativa para encontrar soluções novas diante do medo de sair do script das regras sanitárias? 

O grande pensador da educação Jean Piaget afirmava que o desenvolvimento intelectual acontece com dois componentes, o cognitivo e o afetivo. E é preciso que os dois caminhem juntos. Outros teóricos lembram que não há motivação para a aprendizagem sem a afetividade e que a criança só avança com uma mediação do professor que incentiva a empatia e a curiosidade.

Vai ser uma escola tensa, cheia de “não pode”, em que um espirro deixa todo mundo nervoso, definiu bem a diretora do Colégio Dante, Valdenice Minatel, lamentando. E o pior é que as crianças voltarão sonhando com o cenário que antes viviam na escola e vão se deparar com um espaço descaracterizado. 

Vamos torcer para que o coronavírus não acabe com nossas melhores escolas e mais brilhantes professores. Que as pesquisas estejam certas, nada de grave ocorra no ambiente escolar e as regras possam se afrouxar. E que nossos educadores não esqueçam de encontrar o afeto mesmo por trás das tais face shields que nos fazem parecer personagens de filme futurista. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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